Maria: da Penha, dos filhos, dos animais e de todos nós

A quem é acostumado a andar pela estrada que liga São José dos Campos a Monteiro Lobato, por seis quilômetros e meio aproximadamente é num portãozinho simples – desses feitos de bambu – e um cheiro de fogão à lenha que acompanha as curvas da estrada, que vai ser encontrada uma história de vida que contraria o destino da própria vida.

Em meio a uma quantidade incontável de gatos, cachorros e galinhas – e incontável mesmo, pois enquanto você lê este texto ela já pode ter resgatado mais um animal atropelado pela SP50 ou ter ajudado a nascer mais uma cria dos que lá já vivem – está Maria da Penha Sebastião Eras, ou dona Penha, pra ficar mais em casa.

E é pra se sentir em casa mesmo, pois não é difícil. A hospitalidade da mulher que, aos 59 anos, recebe quem chega com um café e uma boa dose de conversa é de impressionar. E em meio a um papo sem perceber pode aparecer um feijão na panela, daqueles bem caseiros, ou uma porção de bolinho caipira. Sim, dona Penha não deixa a desejar, mesmo que a situação não contribua tanto para tal.

Maria da Penha, natural de Cruzeiro, conta que veio para São José dos Campos aos 14 anos para ajudar na renda da família. “Uma amiga de Cruzeiro que já trabalhava em São José me trouxe para trabalhar em casa de família, porque minha mãe não tinha condição financeira de cuidar de sete filhos lá. Aí eu vim pra ajudar e todo mês eu mandava dinheiro pra ela”, conta. Dona Penha não voltou mais. As portas abertas na cidade e, posteriormente um casamento, a fixaram em São José.

Quarenta e cinco anos depois e por condições financeiras, hoje Maria da Penha vive uma situação um tanto complicada. Sua casa, à beira de uma rodovia considerada uma das mais perigosas do Vale do Paraíba, está inacabada com chão batido, sem uma laje e estrutura comprometida e ainda há muito a ser feito.

Por cada canto é possível encontrar um dano, um reparo necessário, mas nada que tire a esperança da auxiliar de limpeza que anda dois quilômetros até o ponto de ônibus mais próximo, duas vezes ao dia, todos os dias. “Eu ando meia hora pra pegar o ônibus da Johnson (Johnson & Johnson, indústria química em São José dos Campos) e amo aquele lugar. Faço isso todo dia, e num é um ano não, são cinco anos já. Se deixar eu tô varrendo a Jonhson inteira. Fico das oito as cinco, é uma festa trabalhar lá. E no final de semana é aqui: lavando roupa, cuidando de filho, de cachorro, de gato”, conta dona Penha enquanto mostra a condição de sua casa.

A vida poderia ser amarga sem nenhum esforço para dona Penha, mas mesmo que as condições fossem contrárias ela decidiu ser o outro lado da moeda, com tudo e com todos. Na simplicidade hospitaleira de Maria da Penha ainda há muito a se aprender e se inspirar, nem que pra isso tenha que dar uma encostada no portão de bambu e ir chegando pra um café passado na hora. E acredite, ela vai gostar.


Dimas Vilas Boas

Dimas Vilas Boas é jornalista, especialista em gestão de comunicação em mídias sociais, fotógrafo e empreendedor. Flerta com a fotografia social desde 2012, época em que criou a Foto Vilas Boas, até hoje em atividade. É apaixonado por música, turismo e biografias. Acredita que nasceu para empreender e aproximar pessoas por meio de uma comunicação autêntica e livre de amarras. Se considera do tipo de pessoa que passa horas ouvindo e compartilhando sobre a vida e suas inspirações, desde que – é claro – acompanhado de um bom café.

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