Falar e Dizer

Entre as professoras inesquecíveis que tive a sorte de ser aluno, lembro sempre de Dona Mercedes, que insistia para entendermos que as palavras possuem significados próprios, por isso não é sempre que podem ser substituídas por sinônimos.

Para explicar, a mestra ilustrava a lousa com círculos representando conjuntos matemáticos. Os sinônimos se encontram nos pontos de intersecção dos possíveis significados dos termos, mas a correspondência não é perfeita em toda a amplitude dos conjuntos, por isso cada palavra é única.

Como exemplo, as palavras “dizer” e “falar”, consideradas sinônimas, não são iguais nos significados, como é possível comprovar no uso, afinal, é possível falar muito e nada dizer, assim como há quem fala e diz.

Boas aulas, como as de Dona Mercedes, vêm à tona em momentos inesperados. Essa me surgiu em um flashback instantâneo, quando ouvi um motorista se desculpar depois de quase ter me atropelado, enquanto andava de bicicleta:

– Desculpa aí! Eu não te vi.

Com toda a minha indumentária de ciclista urbano, com camiseta colorida, faixas refletivas, capacete laranja e bicicleta com luzes piscantes, que me transformavam em um ponto brilhante no meio da cidade cinza e prata, respirei fundo e respondi:

– Você precisava me enxergar.

Dizendo a verdade, nada falei. Só disse a resposta em pensamento, porque ele acelerou apressado enquanto eu respirava fundo e balançava a cabeça para recuperar em segundos a aula da Dona Mercedes.

É provável que esse motorista continue a dirigir da mesma forma e nunca seja alertado sobre a necessidade de enxergar os demais seres humanos que trafegam pelas ruas, mas se você leitor chegou até aqui, sugiro que aprenda também com a minha mestra.

Vá além e passe a viver dizendo mais do que falando, enxergando mais do que vendo e escutando mais do que ouvindo.

Não é pouco e nem é fácil.


Luciano Toriello

Luciano Toriello é casado, pai, jornalista, ciclista ativo, apaixonado por máquinas de escrever e pelas histórias que elas produzem.

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