A menina que ajuda com os fios

por Kátia Zanvettor

Há quatro anos dou aula para uma aluna no curso de jornalismo da Univap (Universidade do Vale do Paraíba, em São José dos Campos) que, frequentemente, me ajuda a guardar o equipamento depois das aulas. Essa ajuda não é obrigatória, não é frequente, não é solicitada, mas ela sempre acontece nos dias que mais preciso.

Geralmente, depois de uma aula que durou mais que o previsto ou em dias em que os alunos têm enxurradas de dúvidas e perguntas e me prendem no pós aula com uma série de questões, a ajuda é pontual e, frequentemente, eu só me dou conta que ela aconteceu quando vou fechar o equipamento e percebo que ele já está guardado.

Na última aula, em um dia bem corrido, eu saí apressada desta turma e ia me dirigindo para a próxima aula. Ainda com uma leve esperança de ter cinco minutos para comer um lanche, no intervalo das aulas, eis que ouço a voz dela me chamando: Professora, não esquece seu equipamento.

Olhei e lá vinha ela com a bolsa pronta, fios já guardados e arrumados. Dei um longo abraço nela, agradeci e parti para a minha segunda jornada. Graças a este ato de generosidade e empatia da minha aluna consegui comer meu lanche antes de começar minha segunda jornada. E lembro de pensar sobre ela demoradamente naquela noite.

Lembrei de um dia, quando ela estava no primeiro ano do curso e eu ainda ensinava os pontos básicos do texto jornalístico, de ela me parar entre uma rampa e outra dos corredores da universidade e pedir indicações de leitura. Uma lista com aqueles livros que todo estudante de jornalismo deve ler. Fiz a lista e tenho notícias que ela segue firme na leitura ainda que também não tenha escapado do medo que percebo surgir nos rostos jovens que estão prestes a se formar.

Essa foi a grande questão que este episódio me trouxe: será que o mercado de comunicação, com todas as suas contradições, consegue identificar pessoas com a delicadeza desta aluna?


O mercado da área de comunicação que está desesperado por bons profissionais, comprometidos, determinados, engajados com o conhecimento, na hora de fazer uma análise dos currículos, consegue ter uma lupa para identificar habilidades intangíveis como empatia, solidariedade e respeito?


Infelizmente não acredito que essas qualidades se destacam no currículo, não é tão fácil escrever sobre o impalpável e, no momento da entrevista, muitas coisas podem influenciar o bom desempenho dos candidatos. Eu, como professora, sempre que for consultada sobre candidatos para cargos na área, não terei dúvidas em indicar primeiro os bons, ou seja, meninas e meninos que escolhem fazer o bem e dedicar coração à sua formação. São esses que indico e são esses que gostaria de poder contratar. Espero que o mercado também!


Kátia Zanvettor

Jornalista, mestre e doutora. Consultora em Comunicação e Educação com fomação em Emotional Intelligence. Experiência no mercado de comunicação como redatora, gestora em comunicação institucional e na implantação de projetos em educomunicação. Atualmente é professora da Univap e diretora da Zan Projetos em Comunicação e Educação.

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