Alimento para o corpo e alma

Voluntários oferecem muito além do que um prato de sopa a moradores de rua em São José

por Carolina Veneziani, com contribuição de Dimas Vilas Boas

Ao consultar o dicionário, temos que “empatia” se constitui como a habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa, compreendendo seus sentimentos, desejos, ideias e ações. É se envolver emocionalmente em relação a uma pessoa, a um grupo e a uma cultura.

Empatia é o que impulsiona aproximadamente trinta voluntários todas as terças-feiras a manter vivo o projeto “Sopão Amigos da Rua” durante 23 anos, desde a captação de alimentos e objetos a serem doados aos atendidos pela ONG, tais como, roupas, cobertores, material de higiene pessoal, ração para os animais de estimação, até o preparo e distribuição das sopas, pelas ruas de São José dos Campos.

A sede do projeto está localizada na região central da cidade, que é um empréstimo da Obra Social Célio Lemos, em virtude da necessidade que o Sopão Amigos da Rua tem de uma cozinha industrial, pois semanalmente são elaboradas 250 marmitas para os necessitados.

Parte do grupo que se reúne semanalmente para a entrega das sopas / Foto: Dimas Vilas Boas

Às 19h30 do dia 15 de maio, uma terça-feira de clima ameno, chegamos à sede do projeto entre as divisões de carros e respectivos voluntários, bem como as atribuições de rotas, seguindo a escala elaborada pelos responsáveis da ONG. Após a organização de todos os envolvidos, a oração e a foto fazem parte do ritual semanal de entregas.

Já na primeira parada sentimos o que motiva aquelas pessoas: o sorriso de seus “clientes”, nomenclatura utilizada pelos voluntários aos atendidos pelo projeto, sejam os moradores de rua que reiteradamente ficam nos pontos de entrega da sopa ou aqueles que simplesmente aparecem no meio do caminho.

As histórias vão surgindo sem muitos questionamentos de nossa parte. Os clientes do Sopão fazem questão de nos contar sobre suas vidas, dificuldades ou até nos ensinar algo, como foi o caso do Alexandre, o desenhista.

Uma das artes de Alexandre, um dos moradores de rua / Foto: Dimas Vilas Boas

Com apenas uma caneta esferográfica preta e o verso de uma folha de papel sulfite já utilizada, ele desenha pergaminhos com passagens bíblicas e emprega técnicas de sombreamento àquelas caligrafias diferenciadas. Ao nos mostrar seus desenhos, ele nos explica um pouco sobre a sua fé e esperança em dias melhores.

Seu Antônio, que também nos aguardava próximo a uma das passarelas que beira a Rodovia Presidente Dutra, de forma curiosa, estava preocupado com o bem estar de todos os voluntários, alertando-os sobre algumas pessoas que estavam sob o efeito de drogas, presentes na região. Inclusive nos contou que dispersou de alguns, para que o comportamento agressivo deles não impossibilitasse a entrega de sopas naquele local.

Uma semana depois e 10°C a menos, no dia 22 de maio, voltamos à sede do projeto. Os responsáveis nos avisaram que naquele dia a busca maior seria pelos agasalhos e cobertores, em virtude da mudança brusca de temperatura. E realmente, os cobertores e roupas levados foram todos doados. Muitas vezes, os atendidos buscavam somente isso.

Nesse segundo dia conhecemos o Sr. Jadir e a Isabela, sua cachorrinha de estimação. Ele muito atencioso com sua companheira de noites frias e ela muito simpática com os voluntários. Contou-nos que não vai para o abrigo porque não tem como deixá-la e essa é a realidade de muitos moradores de rua.

Isabela, a cachorrinha de estimação de um dos moradores de rua / Foto: Carolina Veneziani

Os abrigos municipais exigem disciplina de horários e impedem a entrada de animais de estimação, que muitas vezes tornam-se a única família daquelas pessoas. Além disso, como bem sabemos, os animais zelam por aqueles seres humanos que os alimentam e dão carinho, por isso o apego do Sr. Jadir para com a Isabela.

Novamente nos encontramos com o Alexandre, o desenhista, que nos presenteou com um desenho cheio de flores e pássaros. Ele, todo alegre, disse que ganhou um caderno e canetas de um admirador de seu talento e que estava vendendo seus desenhos. Além disso, fazia questão de saber sobre a vida de seus clientes e orava por eles.

Acompanhar, durante duas noites, o trabalho dos voluntários e interagir com os moradores de rua, nos ensinou muito sobre gratidão. Dona Sueli, voluntária há seis meses, nos ensinou uma lição aprendida durante o processo de entrega do sopão que é válida para a vida também: “Faça o que tiver de fazer, mas faça como se estivesse fazendo pra Jesus”.

“Cada pessoa vive o que precisa viver, mas se eu posso fazer com que essa passagem seja a mais tranquila possível, assim o farei”, explicou Aline, voluntária há um ano, sobre sua motivação em colaborar com o projeto.

O alimento do corpo, que neste caso é a sopa, é apenas um pretexto para dar um pouco de carinho e atenção àqueles que, por muitas vezes, são negligenciados pela sociedade e pelo poder público. É difícil compreender o que leva cada uma daquelas pessoas a buscar abrigo nas ruas da cidade, mas o intuito principal desse projeto é fazer com que a vida dos “clientes” fique um pouco mais leve e aquecida, com um prato de sopa, um cobertor e um ombro amigo, apesar de todas as mazelas diárias.

Um entre tantos à espera de muitos

O projeto Sopão Amigos da Rua é um entre vários grupos independentes que realizam este tipo de trabalho nas ruas de São José dos Campos. Nas duas noites de visita às calçadas e praças, vimos ou soubemos de pelo menos dois grupos que desenvolvem atividade semelhante, embora os voluntários afirmem a existência de outros mais. A Secretaria de Apoio ao Cidadão da Prefeitura de São José dos Campos afirmou por meio de sua assessoria que não mensura quantos grupos como esse há na cidade e que embora ajam de maneira espontânea e esporádica, os reconhecem pela boa vontade, mas acreditam não ser a solução para a situação dos moradores de rua.

Ainda de acordo com a Prefeitura, o trabalho desenvolvido pela Secretaria de Apoio ao Cidadão é de restabelecer vínculos familiares e sociais e que isso acontece por meio da aceitação em ir para os abrigos e receber, posteriormente, auxílio por meio dos serviços da rede assistencial como acolhimento humanizado nos abrigos, acompanhamento psicossocial, oficinas e apoio para acesso a documentos e garantias de direitos e cidadania. A Secretaria de Apoio ao Cidadão contabiliza cerca de 600 pessoas na situação de rua, sendo 70% munícipes e 30% migrantes. Deste número total, a Administração aponta que aproximadamente 90% estejam em situação de dependência química e/ou etílica, que são encaminhados – quando da aceitação – para tratamento nas entidades conveniadas à Prefeitura.

Independente de qual seja a fonte do auxílio, poder público ou cidadãos comuns, é necessária atenção diária a essa população, que tanto sofre com as penúrias que a vivência na rua traz.

*alguns nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados


Carolina Veneziani

Carolina Veneziani tem 23 anos, é advogada, joseense de nascimento e argentina de coração. Em sua formação descobriu um prazer sem igual por entender e ajudar as pessoas, dando-as acesso à Justiça. Acredita fortemente no ser humano como agente transformador da sociedade, sendo impulsionado por meio da educação de qualidade. Gosta de boa música, viagens, conhecer culturas e pessoas e ouvir histórias de vida.

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