Vem pro baile!

Mensalmente, em São José dos Campos, o Baile da Bonita resiste à cultura de vinil nos moldes dos tradicionais bailinhos dos anos 50

por Natalee Neco

Desde julho do ano passado, as redes sociais de São José dos Campos começaram a divulgar uma festa diferente, de nome legal e de identidade visual bacana, que traz uma referência vintage: clássica, antiga e descolada. O nome do evento é o Baile da Bonita e o passar dos meses só estão reforçando que o título faz jus à festa.

DJ Heitor Turci / Foto: Jéssica Guedes

Heitor Turci e Thiago Viana são designers e colecionadores de vinil. Há três anos, encontraram-se em um projeto na região e conectaram-se por meio das afinidades musicais e experiências passadas, que remetiam ao grafite e ao gênero Hip Hop. Começaram a se reunir, trocar vinis, pesquisar sobre a musicalidade, e foram convidados para tocar em uma festa particular. A surpresa gerou motivação e a partir daí o Menina Bonita Sambasystem foi criado. O projeto tem, como objetivo primordial, fazer com que a cultura do vinil continue resistindo na região do Vale do Paraíba

O nome remete à representatividade do feminino na música popular brasileira, especificamente nas letras do samba-rock. Um tipo de dança que surge a partir da década de 50, mesclando os movimentos do rockabilly com o gingado brasileiro de se dançar samba, muito atribuído também à resistência da cultura negra.

Se existe a combinação entre samba-rock e vinil, vai ter que ter bailinho também. Assim, nasceu o Baile da Bonita no início do segundo semestre de 2017. O conceito do analógico nunca foi contrariado e, para fazer a festa acontecer, os meninos reuniram suas coleções e uma grana para investirem em duas vitrolas e um mixer de som.

“Preservamos a cultura de baile. Nos anos 50, predominava a música orquestrada. Depois, o samba jazz ou o samba de exportação, como chamamos, dominou. Quando o movimento negro assumiu a perpetuação dessas festas, a música popular caracterizou-se como identidade dos bailes, reforçando o black americano e consagrando grandes nomes de artistas brasileiros como Jorge Ben Jor e Tim Maia”, explica Thiago.

DJ Thiago Viana / Foto: Jéssica Guedes

Mensalmente, o Menina Bonita Sambasystem define um tema ou um DJ convidado para o baile. A escolha é feita a partir do desenrolar das pesquisas e o convidado tem total liberdade para fazer a festa acontecer, explorando coleções específicas de vinil.

O DJ da primeira edição, André Luis da Silva, mais conhecido como Dedé e com uma bagagem significativa na cultura DJ da região, gostou tanto do movimento proposto que aderiu ao projeto. Assim, o Baile da Bonita é organizado por ele, pelo Heitor e pelo Thiago.

“Você não toca vinil sem pesquisar. É necessário entender a precisão das faixas do disco para não perder o tempo. Precisamos conhecer as músicas, garimpar, ouvir os lados e dedicar muito tempo de estudo. Em um universo musical quase que totalmente digital, a cultura do vinil é resistência”, argumenta Heitor.

O baile tem fases. No início, as pessoas são embaladas pelo funk, depois o balanço do samba-rock toma conta do salão, voltando para um funk mais melódico e por fim, a noite fecha com chave de ouro ao som das melodias, que são as músicas mais lentas, para dançar juntinho e partir ao tão esperado momento da paquera.

“Mantemos a tradição e o respeito à cultura de baile. Como característica do projeto, mixamos mais as canções, um costume que vem do nosso repertório no Hip Hop. Nos bailes tradicionais, as músicas não são mixadas e são tocadas até o fim”, explica Heitor

A realização no Sobradinho Bar, localizado no Jardim Satélite, foi escolhida pelo aconchego do espaço. “Quem olha pode até achar pequeno, mas isso que faz a diferença. A cultura de baile é isso: ela funciona com a massa, com a sintonia dos passinhos, com a beleza em ver as pessoas tirando umas as outras para dançar e, coletivamente, criar um ambiente dançante”, afirma Thiago.


“A cultura de baile é isso: ela funciona com a massa, com a sintonia dos passinhos, com a beleza em ver as pessoas tirando umas as outras para dançar e, coletivamente, criar um ambiente dançante”. – Thiago Viana


Por falar em resistência, os meninos entendem que o Baile da Bonita carrega, além de uma opção de entretenimento, uma responsabilidade social. “Eu e Thiago somos dois meninos brancos amantes da cultura vinil. Para levar em frente esse trabalho, temos o máximo respeito pelo movimento negro e sabemos que não somos representantes legítimos desse legado”, ressalta Heitor. Por isso, o Menina Bonita Sambasystem assume compromisso em agregar colecionadores e DJ’s regionais e nacionais que já resistem à essa cultura nacional há muito tempo.

Vale ressaltar também que o protagonismo feminismo não está em destaque apenas no nome; a valorização do trabalho de DJ’s mulheres é uma das principais vertentes do baile. É feita uma seleção para que músicas de cunho machistas e racistas não entrem no repertório.

A representatividade importa

Ao longo dos anos, desde a escravidão, enfrentar o preconceito racial é uma luta dos negros marcada na história do Brasil. Alguns pesquisadores defendem que, a partir do final da década de 70, no processo de redemocratização brasileira, os movimentos sociais, especialmente o movimento negro, conquistou ainda mais visibilidade no enfrentamento ao racismo e, desde então, alguns grupos culturais assumem o seu papel político e transformador.

Quem faz esse recorte teórico é a historiadora e pesquisadora das questões ético-raciais Mariana Castro Teixeira. “Durante séculos, os modos de existir do negro foram sistematicamente inferiorizados. Valorizar as culturas afro-brasileiras colabora para a ressignificação afirmativa da identidade negra e, consequentemente, reeduca para as relações étnico-raciais no Brasil. E, mesmo que não seja explícito o combate ao racismo no Baile da Bonita, percebemos o respeito à cultura de baile e à cultura negra como forma de resistência de novos parâmetros que quebram aqueles antigos, perpetuados desde o período colonial”, argumenta.

A historiadora é frequentadora assídua do baile e faz questão de divulgar a importância do evento além de uma opção lazer e, sim, como uma agenda cultural que traz representatividade. “Fiquei maravilhada quando conheci o Baile da Bonita. Além do repertório musical, encontramos o público negro que muitas vezes não vemos nos centros da cidade e nas agendas culturais, mesmo que essa realidade esteja mudando. Vejo o baile como um resgate social muito importante”, diz Mariana.

Vida longa ao baile

Sobre a continuidade do Baile da Bonita, o Menina Bonita Sambasystem pretende mantendo o atual formato e o preço acessível para a entrada. Uma novidade que chega a partir desta edição de abril, na próxima sexta-feira (27), é a presença de aulas de samba-rock e exposições artísticas de produtores culturais regionais.

“O baile nasceu para resistir à uma cultura e agora faz parte da agenda cultural de São José dos Campos. Os frequentadores entendem que, uma vez por mês, o Baile da Bonita acontece para quem quer dançar e vivenciar a experiência musical”, conclui Heitor.


Natalee Neco

Natalee Neco é graduada em jornalismo e especialista em estudos culturais com ênfase em cultura popular brasileira. Possui formações complementares na área da cultura, projetos e políticas públicas culturais e, jornalismo literário. Atua no mercado de trabalho há três anos como assessora de imprensa, atendendo clientes de segmentos diversos e desenvolvendo também conteúdo para blogs, portais e redes sociais. Além disso, é pesquisadora de linhas diversas da comunicação e da cultura.

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