Vira a mesa: o senso crítico em evidência

Jovens assumem papel protagonista em escola estadual e criam projeto que mistura arte e educação como ferramenta de transformação social

por Maiara da Mata

“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”, a frase de Paulo Freire cabe perfeitamente ao contexto desta reportagem. Beatriz Vitória e Laura Rodrigues são algumas dessas pessoas que transformam o mundo ao redor ao unirem educação e arte.

Aos 16 anos de idade, as estudantes do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual José Vieira Macedo, de São José dos Campos, têm se destacado pelo protagonismo de um cenário raro de se ver nessa idade: o anseio por uma educação de qualidade no ensino público. Mas, o senso crítico vai muito além da personalidade de ambas, o que elas querem mesmo é despertar esse incômodo nas pessoas ao redor.

Beatriz e Laura são retratos de uma sociedade jovem incomodada, que deseja fazer a diferença em sua realidade social por meio da arte e educação. Foi durante uma atividade sem sentido aos olhos das estudantes em sala de aula, que o projeto “Movimento Vira a Mesa” ganhou vida e uniu o incômodo com a forma de ensino atual ao desejo de compartilhar por meio da arte, questionamentos sobre suas visões de mundo e sociedade, além de questões como educação, cultura e política.

Laura e Beatriz e suas poesias que compõem o projeto

“Nós queremos virar a mesa porque não achamos justo ficar sempre aprendendo as mesmas coisas, nós batemos na tecla de que a aula precisa ser interessante. E nada melhor do que a arte para oferecer esse estímulo”, explicam. As jovens se incomodam com a forma de ensino atual porque percebem que não são estimuladas a exercer o senso crítico de forma prazerosa, por isso imaginaram o projeto como uma ferramenta para estimular os questionamentos que surgiam em sala de aula, para que o debate fosse ampliado para além da escola. “Se a aula não for interessante, os alunos não vão querer aprender”, comenta Laura.

Beatriz e Laura encontraram na arte o caminho para sair da zona de conforto e serem estimuladas ao pensamento crítico e questionador do que acontece ao redor. “Nós percebemos que chegar num professor em sala de aula com um vídeo, uma poesia ou música, seria muito mais simples de sermos compreendidas”, conta Beatriz.

Em agosto de 2017 o Movimento Vira a Mesa ganhou vida e passou a fazer parte da rotina das meninas, no decorrer desse tempo elas fizeram intervenções artísticas levando questionamentos críticos em relação ao ensino e as construções sociais. A primeira ação do movimento dentro da escola foi no Dia Mundial da Poesia, comemorado em 21 de março. “Fizemos um varal poético e deixamos os alunos participarem. No início achamos que a participação seria zero, mas muita gente se interessou e tivemos que estender o horário de intervalo. Isso me fez refletir que de certa forma há interesse nos alunos, porém falta incentivo”, explica Beatriz.

Laura faz amendoins (conhecidos como Larica Poética) para vender, o dinheiro arrecadado com a venda dos amendoins serve para o investimento de materiais artísticos para as intervenções. E o projeto não se limitou apenas das grades da escola para dentro, as meninas permitiram que suas vozes alcançassem o lado de fora da escola, passando a fazer intervenções artísticas em praças, pontos de ônibus e até dentro dos transportes coletivos.

“Eu entrava no ônibus e chamava atenção das pessoas com a frase – com licença, com licença, não estou aqui pra pedir dinheiro, só quero um pouco de atenção. Hoje eu resolvi colocar minha cara a tapa pra fazer uma conscientização -. Dessa forma a gente começava a declamar poesia”, conta Laura.

Segundo as adolescentes, em várias dessas ações a receptividade e o interesse das pessoas foram surpreendentes, tornando a proposta do projeto cada vez mais importante e necessária. “Em uma das intervenções que fizemos, nós reparamos que uma mulher começou a chorar muito quando começamos a declamar, eu declamei um poema da Dandara e vi que ela chorou mais ainda”, destacou Beatriz.

Futuro, educação e visão de mundo

As experiências vividas no decorrer do Movimento Vira a Mesa, impulsionou as meninas a evoluírem cada vez mais na proposta de levar o pensamento crítico e inspirador à outros mundos por meio da arte. O desejo de atingir várias vertentes na área do conhecimento se mantém a flor da pele no dia a dia das jovens. Quando questionadas a respeito do ensino em geral, a resposta não é positiva, elas esperam mais desse cenário, anseiam por uma educação transformadora, democrática, interessante e acessível a todos. Desejam que o conhecimento possa ir além de uma apostila preparada para o ano letivo e que o professor em sala de aula também encontre o prazer em ensinar, estimulando os alunos ao pensamento crítico e questionador.

“Nosso ensino é preparado para o aluno que passa cinco horas por dia lendo, decorando e copiando da lousa, não somos estimulados ao debate, a conversa sobre determinado tema”, relata Beatriz. A estudante Laura compartilha da mesma opinião, “a escola acaba formando alunos acomodados, o conhecimento é passado de uma forma maçante, sem estímulos a novas possibilidades, até que uma hora cansa”.

Embora a crítica seja em relação à forma de ensino, as estudantes reconhecem a falta de interesse por parte dos jovens da mesma idade, neste caso, o esforço do professor em prender a atenção dos alunos em sala de aula muitas vezes acaba sendo em vão, por isso a necessidade de estimular o incômodo em outros jovens para que a cobrança por um ensino de qualidade, na intenção de fomentar o senso crítico, seja de responsabilidade de todos.

Laura durante um dia de ação do Movimento Vira a Mesa na escola estadual José Vieira Macedo

Marili Aparecida Tarrasco, professora mediadora da escola, conta que a determinação das jovens sempre foi visível no âmbito escolar. “Elas são muito questionadoras e sempre ocuparam um lugar de destaque, pois correm atrás do que acreditam e são líderes. Elas são ótimas alunas, gostaria que a escola toda fosse assim”, relata.

Para ganhar voz e atuar mais ativamente na escola, as jovens passaram a integrar este ano o grêmio estudantil. Beatriz é presidente e Laura vice-presidente, elas enxergam a oportunidade de colocar seus projetos em prática, além de participar das discussões e propostas para o ano letivo.

Para este ano, elas estão trabalhando para promover um dia inteiro de intervenções artísticas dentro da escola, o Movimento Vira a Mesa quer possibilitar o intercâmbio entre os alunos e movimentos artísticos culturais da cidade, além de terem o contato com a poesia, grafite, danças e oficinas.

As jovens são reflexos de vidas que vêm sendo transformadas por meio do contato com a arte. Laura se identifica com o Hip Hop e o Slam Resistência (uma competição de poesias faladas que leva críticas sociais). “Essa chama de mudança acendeu em mim por meio das músicas e fui incentivada pelo meu irmão a começar a escrever, eu decorava as poesias e falava pra ele, até que ele me incentivou a escrever as minhas próprias poesias, desde então percebi que eu conseguia”, conta Laura.

Beatriz se dedica a estudar fotografia, mas também encontrou na música e na poesia a inspiração para questionar e lutar por seus ideais. “Eu fui incentivada a escrever por causa da Laura, eu via o que ela escrevia e me sentia inspirada”, relatou.

Temas como educação, sistema político atual e desigualdade social são pertinentes às criações poéticas das jovens. “Nós queremos ser a voz que questiona, que estimula o outro a pensar e se a gente conseguir alcançar uma pessoa que seja, todo esforço é válido”, contam as jovens.

Em ano de vestibular, as estudantes já têm planos traçados de carreiras que pretendem seguir. Beatriz quer se dedicar a área de Ciências Humanas e entrar na faculdade para cursar Publicidade e Propaganda. Laura pretende se preparar para morar em Brasília e ingressar no curso de Ciências Sociais.

O anseio das jovens por um debate mais amplo sobre diversas questões da vida em sociedade vai além do contexto aluno e escola. “Por exemplo, eu odeio o termo que fala que política e religião não se discutem, eu acho que tem que discutir sim. Se tem uma pessoa pra questionar algo que está enraizado em nosso pensamento há anos, pode ser que a gente mude e nunca é tarde pra mudar”, conta Beatriz. Para a estudante Laura, é exatamente nessa hora que dentro ou fora da escola, o Movimento Vira a Mesa passa a fazer sentido. “É acender essa luz e promover o interesse pelo debate e despertar questionamentos básicos no dia a dia dos nossos colegas e das pessoas ao redor”.


Maiara da Mata

Maiara da Mata é jornalista. Trabalhou durante 4 anos como repórter e apresentadora em TV pública. Atualmente trabalha com produção audiovisual. Acredita que uma boa reportagem pode ultrapassar o limite de apenas informar, pois também forma, ensina e amplia o olhar do leitor para um senso crítico mais apurado. Por isso valoriza o poder da escrita, assim como o poder de transformação da música. Gosta de arte, cultura e de lugares, mas seu coração pulsa forte por histórias de vida. Carrega como lema a frase de uma jornalista que é fonte de inspiração para o seu trabalho: “Um ser humano, qualquer um, é infinitamente mais complexo e fascinante do que o mais celebrado herói” (Eliane Brum – jornalista).

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