A era das fake news: Prática que se tornou comum nos últimos anos contabiliza perdas irreversíveis

por Daniela Santos, para outrosquinhentos.com*

Entre um intervalo aqui e ali, seja do trabalho, afazeres domésticos e dos estudos, paramos para nos informar por sites de notícias, portais, redes sociais, aplicativos de veículos de comunicação, jornais impressos, (uma rotina cada vez mais rara nos dias de hoje).

Ultimamente, no entanto, vem ganhando – e muita – força, links enviados via apps, contendo informações bombásticas e sensacionalistas que levam o receptor a acreditar em tal fato, mesmo que não haja dados concretos sobre o conteúdo e, principalmente, a fonte deste material. Estou falando, claro, das fake news.

O termo ganhou notoriedade após as eleições presidenciais americanas de 2016, mas as notícias falsas ou notícias mentirosas são bem mais antigas que este fato. A diferença é que, antigamente, as fake news eram propagadas de forma oral, pelo famoso “boca a boca” – e, portanto, não ganhavam tamanha proporção como nos dias de hoje.

Para se ter uma ideia, notícias inverídicas marcaram o mandato do Rei espanhol Felipe 2º. Em 1564 surgiram boatos do falecimento do monarca e ele teve de tomar medidas para desmentir a informação que circulava pelo Reino e, naquela época, não era nem um pouco fácil de apurar a veracidade dos fatos porque não havia, nem de perto, as tecnologias e facilidades do mundo moderno.

Mas por que as fake news tornaram-se uma verdadeira ameaça à nossa sociedade e sua disseminação tem se tornado cada vez mais fatal?

Por que nós, enquanto seres pensantes, não questionamos quando recebemos um vídeo negando a gravidade de uma pandemia e incentivando tratamentos cientificamente ineficazes contra uma doença?

Quantos de nós já não presenciamos um familiar, amigo ou colega replicando vídeos através de aplicativos de mensagens, que garantem curas e milagres via crenças populares?

Pois é. Mais cedo ou mais tarde, infelizmente, a conta chega: Um estudo divulgado na revista American Journal of Tropical Medicine and Hygiene afirma que, desde o início da pandemia da Covid-19, centenas de milhares de pessoas morreram por conta de notícias mentirosas ao redor do mundo, justamente por conta de práticas não comprovadas pelos órgãos de saúde.

É incoerente e inacreditável que após anos e mais anos de pesquisas, da evolução da ciência, com uma infinidade de resultados comprovados – e mais pessoas com acesso direto à informação, o ceticismo se sobressaia, mundo afora, e volte para o centro das nossas discussões.

Neste momento ganha força o conceito da pós-verdade: quando os fatos são colocados em xeque ao mesmo tempo em que crenças falsas ganham força e boatos se engrandecem. É como se a verdade não fosse mais importante e, desta forma, milhares e milhares de pessoas são manipuladas.

Essas notícias não ficam restritas à área da saúde: Essa quadrilha, podemos dizer assim, está presente em massa em campanhas eleitorais (são, muitas vezes, patrocinadas por políticos, inclusive!) ainda mais na era moderna em que muitos candidatos se fortalecem através da internet e dessas mentiras. Não preciso nem discorrer aqui os malefícios e inúmeras perdas de se ter um representante no poder que flerta com esta prática.

Tudo que mencionei acima, não é invenção da minha cabeça: Um estudo realizado por cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachussetts e publicado na revista Science, aponta que as fake news têm 70% mais chance de viralizar do que as notícias verdadeiras, pois dentre suas características estão o apelo emocional.

E não para por aí, não: Um levantamento da “Avaaz” evidencia que os brasileiros são os que mais acreditam em fake news. De acordo com a plataforma, sete em cada 10 brasileiros se informam por meio de redes sociais e ao menos 62% já se deixaram enganar alguma vez. Que ranking triste.

Para que esses números diminuam, é necessário também que nós, mais jovens e habituados com os meios digitais eduquemos os mais experientes: Explicar aos nossos pais, tios e avós que uma extensa quantidade de conteúdo que nos é enviada é inverídica para que eles se tornem mais críticos e não sejam vítimas dessa rede. Eis algumas dicas:

PARA NÃO CAIR NUMA FAKE NEWS

  • Fique atento à data do conteúdo publicado;

  • Cheque a informação, quando possível, direto da fonte (Ex: site da OMS, ONU, Ministério da Saúde), em demais sites e portais (quando a notícia é verdadeira e bombástica estará em vários veículos) e agências de checagem dos fatos;

  • Preste atenção em sites desconhecidos;

  • Desconfie de erros grotescos de português. Errar é humano, mas em sites confiáveis ele logo é percebido e corrigido;

E aos colegas jornalistas gostaria de, mais uma vez, levantar a discussão: Na hora de dar uma notícia quentinha, um factual, vale a pena fazer de tudo pelo furo, apenas para ser o primeiro profissional/veículo a publicar o fato? Sem investigar e conferir várias vezes, as informações repassadas? Não é novidade para ninguém que as redações estão cada dia mais enxutas e, consequentemente, a sobrecarga dos profissionais, mas aprendemos em faculdade que a checagem direto da fonte, várias vezes, é primordial. Precisamos valorizar e defender nossa profissão, nossa principal ferramenta para combater acusações e mentiras é, justamente, a informação de qualidade.

Não se esqueçam: Fake news mata e a única ferramenta legítima para combater este mal (podemos, sim, falar desta forma!) é com informação. Informação apurada e checada.

*Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com



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