terça-feira , 16 abril 2024
Vida e Saúde

BBB: Sobrecarga emocional se tornou motivo para capacitismo?

Explosão de participante do BBB diz muito sobre gatilhos emocionais e sobrecarga materna, mas expõe falas capacitistas - e isso é um problema

Psicóloga alerta sobre falas preconceituosas de Fernanda Bande. Especialista explica que participante do BBB vem perpetuando comentários capacitistas

A participante do Big Brother Brasil 24, Fernanda Bande, se tornou assunto nas redes sociais após tecer uma crítica à concorrente de reality, Beatriz Reis, a chamando de “dodói” e afirmando que “faltavam cromossomos” na participante. Através de seus perfis oficiais, a equipe da sister se manifestou reconhecendo o erro nas falas da confeiteira.

A fala que viralizou ocorreu na noite desta segunda-feira (18), durante uma conversa na área externa da casa do programa. “Eu acho ela dodói, tipo de dodói mesmo. Está faltando cromossomos ali […] Vocês ficam falando que não pode falar essas coisas… Eu estou falando porque acho ela dodói. Eu acho que ela tem problema, não acho nada normal ali. Fico até com medo de falar, às vezes, porque eu acho que é uma questão de laudo [médico]”, afirmou Fernanda.

A fala viralizou e gerou polêmica nas redes sociais.  Usuários no X (antigo Twitter) repudiaram a afirmação da participante. O assunto tomou ainda maior proporção com internautas comentando que ela não deveria fazer afirmações capacitistas, principalmente por ser mãe de uma criança autista.

De acordo com a neuropsicóloga e pesquisadora do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, Leninha Wagner, utilizar “ter cromossomos a menos” de maneira pejorativa é um comportamento que não deve ser repetido em sociedade. “Há diversas condições e síndromes que são percebidas com a falta ou ausência de partes de cromossomos. Mas isso não torna alguém ‘problemático'”, afirma Leninha.

Segundo Wagner, a Síndrome de Cri-du-Chat, por exemplo, ocorre quando uma parte do cromossomo 5 está ausente, levando a atrasos no desenvolvimento, dificuldades de aprendizagem e problemas de fala. Já a Síndrome de Wolf-Hirschhorn é caracterizada pela deleção de uma parte do braço curto do cromossomo 4, trazendo características faciais distintas, atraso no crescimento e desenvolvimento, deficiência intelectual e problemas de saúde variados. A Síndrome de Criptocromossoma 22 conhecida como Síndrome de DiGeorge, resulta da deleção de uma parte do cromossomo 22. Ela pode causar uma série de problemas de saúde, incluindo defeitos cardíacos congênitos, dificuldades de aprendizagem e problemas imunológicos.

A Síndrome de Turner é a condição mais conhecida, e ocorre em mulheres que têm apenas um cromossomo X, em vez de dois. Isso resulta em características físicas distintas, como baixa estatura, disfunção ovariana e anomalias cardíacas congênitas. “Isso varia de uma anomalia genética rara, que afeta exclusivamente mulheres. Ela ocorre devido à ausência parcial ou total de um dos cromossomos X nas células do corpo. Uma das características mais proeminentes da Síndrome de Turner é a baixa estatura. As meninas afetadas geralmente apresentam um crescimento mais lento durante a infância e a adolescência, resultando em uma estatura final abaixo da média”, afirma a neuropsicóloga.

Além disso, muitas mulheres com Turner experimentam disfunção ovariana, o que se manifesta como a ausência de menstruação e infertilidade. “A causa subjacente dessa disfunção é a falha dos ovários em se desenvolver adequadamente, levando à produção insuficiente de hormônios sexuais. Anomalias cardíacas congênitas também são comuns em indivíduos com Síndrome de Turner. Estenose da aorta, defeitos no septo cardíaco e válvulas cardíacas anormais são algumas das condições cardíacas que podem estar presentes”, destaca a pesquisadora do CPAH.

O apoio psicológico e educacional é fundamental para ajudar essas pessoas a responder os desafios únicos que enfrentam.

De acordo com a especialista, o tratamento dessas síndromes são multidisciplinares, e visam abordar os sintomas específicos de cada indivíduo. Cada uma delas apresenta uma variedade de sintomas e complicações, e o tratamento geralmente é direcionado para gerenciar esses sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes afetados.

Segundo a profissional, chamar pessoas com menos cromossomos, como aquelas que têm síndromes genéticas de “dodóis” da cabeça é não apenas impreciso, mas também profundamente desrespeitoso e prejudicial. “Essas comparações são baseadas em estereótipos antiquados e falta de compreensão sobre as complexidades das condições genéticas. Cada pessoa é única, independentemente de sua constituição. Cada indivíduo tem suas próprias habilidades, talentos e potenciais únicos, e reduzi-los a um estigma simplista é triste”, pondera Leninha.

De acordo com Wagner, é importante olhar além da condição de uma pessoa e reconhecer sua humanidade, suas contribuições e suas experiências. “Essas afirmações perpetuam o estigma em torno das deficiências e das diferenças, o que pode levar à discriminação, exclusão social e marginalização desses indivíduos”, finaliza a neuropsicóloga.

“Não existe desculpa plausível capaz de apagar ou diminuir a dor de todos PCDs e suas famílias nesse momento. Fernanda errou e ponto. Independente da intenção, foi uma fala infeliz”, afirmou a equipe da participante em nota.

Explosão de Fernanda no BBB diz muito sobre gatilhos emocionais e a sobrecarga materna

Em outro episódio recente, a participante do Big Brother Brasil 24 fez um desabafo no reality que causou muita controvérsia na internet. Os comentaristas de plantão das redes sociais logo trouxeram análises sobre ser mãe solo, sobre as consequências da fala violenta, sobre a educação, mas será que essa avaliação levou realmente em conta o contexto todo para ditar o veredicto? A especialista em neurociências e desenvolvimento infantil e biomédica Telma Abrahão explica que essa fala tem muitas camadas a serem expostas.

“A dinâmica entre uma mãe sobrecarregada, com dificuldades de autorregulação e seus filhos pode ser explicada pela compreensão sobre o funcionamento do cérebro humano. É importante olharmos por trás de uma fala como essa, compreender o contexto de vida de um indivíduo, para que possamos compreender os motivos que levam uma pessoa a fazer o que faz.”, explica Telma.

A participante demonstrou em sua fala o que muitas mães enfrentam silenciosamente todos os dias, e que muitas vezes não têm com quem desabafar ou são criticadas e julgadas quando falam. “Cuidar e educar uma criança é um papel que envolve profundamente as partes emocionais do cérebro, e quando os pais não conhecem o comportamento infantil ou repetem padrões de educação vivenciado em suas infâncias, sem repertório emocional para lidar com conflitos, um grande caos pode ser instalado nas famílias, especialmente com mães solos que não possuem apoio em seu dia a dia”

A especialista também ressalta a importância de oferecer suporte aos que enfrentam esgotamento parental, ajudando-os a gerenciar o estresse e promovendo práticas parentais positivas para mitigar possíveis impactos negativos no desenvolvimento infantil.

No cérebro de uma mãe sobrecarregada ocorrem mudanças importantes que podem impedi-la de tomar decisões e agir de forma consciente. “Precisamos colocar luz nesse ponto para que a sociedade preste atenção nessa mulher que precisa de apoio”, alerta a biomédica, que enumera as mudanças fisiológicas maternas.

  1. Aumento do cortisol – “o esgotamento parental é frequentemente marcado por um aumento nos níveis de cortisol, o hormônio do estresse. Isso pode afetar negativamente o funcionamento do córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional, tomada de decisão e empatia”.
  2. Ativação da amígdala – “o estresse crônico pode levar a uma maior ativação da amígdala, a área do cérebro envolvida na resposta de luta ou fuga. Isso pode resultar em reações mais emocionais e agressivas em relação a estímulos que normalmente seriam considerados gerenciáveis”.
  3. Esgotamento dos recursos – “o esgotamento dos recursos cognitivos e emocionais pode levar a dificuldades em proporcionar respostas emocionais positivas e atenção adequada às necessidades dos filhos, sendo frequentemente percebido pelas crianças como rejeição ou desatenção”.
  4. Ideação suicida – “a sobrecarga materna, quando chega no nível extremo de esgotamento parental, a mãe pode começar a ter ideações suicidas e, nesse estágio é ainda mais importante a rede de apoio, as pessoas em volta darem atenção a esse tipo de fala, aos sinais de que aquela mulher precisa de ajuda. Não podemos suprimir essa dor, guardar, é preciso falar e tratar”.

Esse tipo de situação impacta o cérebro da criança, que está em pleno desenvolvimento, gerando gatilhos e conexões que esse indivíduo pode levar para o resto da vida. “São momentos de explosão dos pais ou cuidadores que geram na criança memórias que podem marcar a forma como ela irá se relacionar na vida adulta, por isso é muito importante esse apoio a quem está responsável pelos cuidados, para que essa pessoa também possa ter seus momentos de descanso e autocuidado”, afirma Telma.

  1. Estresse tóxico – “crianças expostas a rejeição ou inconsistência emocional podem experimentar o que é conhecido como estresse tóxico, que pode prejudicar o desenvolvimento de estruturas cerebrais importantes, como o córtex pré-frontal e a amígdala”.
  2. Alterações na resposta ao estresse – “a exposição prolongada ao estresse pode alterar o sistema de resposta da criança, aumentando a produção de cortisol. Isso pode afetar adversamente o desenvolvimento cognitivo, emocional e social”.
  3. Problemas de apego – “a rejeição ou inconsistência emocional pode levar a problemas de apego, afetando a habilidade da criança de formar e manter relações saudáveis no futuro. Isso está associado a mudanças na região do cérebro responsável pelo processamento de recompensas e motivação, influenciando a maneira como a criança busca e responde ao apoio emocional”.

Na educação Neuroconsciente é possível entender melhor o que acontece durante a infância no cérebro das crianças e o que está por trás do comportamento dos adultos quando o assunto é relacionamento entre pais e filhos. A especialista defende que nesses casos explorar estratégias que fortaleçam o vínculo mãe-filho e promovam o bem-estar emocional conjunto pode ser uma saída para diminuir episódios como o retratado por Fernanda.

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