Como uma rede internacional de voluntários auxilia jovens de periferia no Brasil a aprenderem inglês?

Organização social já viabilizou mais de 1,5 mil encontros online individuais desde 2019

por outrosquinhentos.com

Uma rede de nativos e brasileiros que vivem no exterior junta a tecnologia e o conhecimento como ferramenta para que jovens de periferias e escolas públicas de São Paulo e Rio de Janeiro aprendam ou aprimorem o nível inglês. As mentorias online e individuais acontecem três vezes ao mês e fazem parte da iniciativa social Soul Bilíngue, que democratiza o acesso internacional a jovens de baixa renda.

Disponível para pessoas que dominam o inglês e topam doar parte do tempo para esclarecer dúvidas e mostrar sobre como o idioma é utilizado no dia a dia, nas mais diferentes regiões do mundo, o trabalho voluntário atualmente conta com mais de 100 pessoas, dentre americanos e brasileiros que vivem na Inglaterra, no Panamá, em Barbados, na Argentina e na Índia.

Até então, mais de 300 jovens de baixa renda já foram beneficiados. Interessados em fazer parte do time de mentores de inglês, podem acessar o site www.soulbilingue.com e, na descrição de mentorias, preencher um formulário de interesse.

Com 5% da população falando inglês, segundo pesquisa da British Council, o Brasil é apenas o 53º colocado em um ranking de fluência no idioma, de acordo com English First. O impacto negativo disso atinge, principalmente, pessoas de menor renda, a maioria jovens de escolas públicas e regiões periféricas, com menor probabilidade de disputar uma boa vaga de emprego ou se comunicar em viagens para o exterior.

O estudo “O Ensino de Inglês na Educação Pública Brasileira”, da British Council, aponta algumas características que contribuem para a realidade, como o fato de apenas um em cada cinco professores de inglês terem formação no idioma ou 69% admitirem ter dificuldades com a língua, mesmo arcando, com recursos próprios, em formação continuada.

Baixa qualidade ou nível avançado do material didático em relação aos alunos, além da não percepção, pelos estudantes de maior vulnerabilidade social, de como o idioma pode ser relevante para sua formação, são outros aspectos.

Democratização

A fundadora da Soul Bilíngue, Ariane Noronha, afirma que organização nasceu para democratizar o acesso de jovens de escolas públicas e periferias ao aprendizado de novos idiomas, à vivência de outras culturas e o crescimento pessoal e profissional a partir de experiências internacionais.

“Eu só consegui aprender inglês, efetivamente, quando pude me comunicar com pessoas de outros países e até brasileiros que tinham realmente domínio da língua. Foi aí que surgiu a ideia de convidar quem tem fluência no inglês a fazer parte do programa. A mentoria internacional é uma das partes que os alunos mais adoram e que sentem que estão se desenvolvendo. O inglês transforma destinos e, ao mesmo tempo em que aprendem o idioma, nossos jovens de periferia se conectam com pessoas ao redor do mundo. Isso é democratização do ensino internacional e acesso a outras culturas também”, diz.

O mineiro radicado em Dublin, na Irlanda, Luiz Eduardo Costa, diz que “compartilhar um pouco do meu conhecimento é incentivar e encorajar estes jovens”. “Conseguimos fazer com que acreditem mais em seus sonhos”, afirma a paulista Lauren Stigliano, que vive em Portugal. Ambos são mentores da Soul Bilíngue.

Ex-aluna e uma das jovens à espera do embarque para estudar fora, Juliana Farias, de 23 anos, afirma que “as mentorias foram fundamentais para meu crescimento, principalmente para quebrar o bloqueio de falar em inglês, em especial com uma mentora nativa da língua, que me ajudou a me escutar melhor e entender que há um processo que requer prática para poder aprender cada vez mais um pouco”.

Intercâmbio

Além das mentorias e das aulas regulares online, aos sábados, todos os alunos da organização social concorrem a bolsas de estudo de inglês em países como Austrália, Inglaterra, Nova Zelândia e Canadá, como no caso da Elisabete Araujo, de 20 anos, aluna da edição 2018 e intercambista no país da América do Norte, no ano passado.

“Quando a gente passa por essa experiência completamente fora da zona de conforto, aprende não apenas inglês, mas também lições para toda a vida”, afirma a jovem.

Para participar, o jovem tem de fazer o processo seletivo semestral, ter de 18 a 26 anos, renda per capita de até dois salários mínimos e ser estudante ou ex-aluno de escola pública. Mais de 15 pessoas já viajaram com a organização social, que suspendeu 20 viagens programadas para este ano, em decorrência da pandemia de Covid-19.

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