Comunicação Interna: Cada vez mais democrática, transversal e imprescindível

Para uma empresa ter sucesso com seu público final, é preciso arrumar a casa de dentro para fora

por Daniela Santos, para outrosquinhentos.com*

Nas faculdades de comunicação, sobretudo no curso de Jornalismo, o setor mais explorado nas salas de aula é o dia a dia das redações e suas respectivas funções, entretanto a área é muito, mas muito mais ampla que isso e o mercado vem mudando né, minha gente! E, como profissionais, precisamos seguir as tendências.

Leia também: Assessor x repórter: Uma relação de amor e ódio. Como melhorar essa comunicação? E mais: O poder da comunicação na era digital, a frágil parede entre o sucesso e fracasso

A comunicação é uma ferramenta que existe desde que o mundo é mundo (seja ela por meio de desenhos, símbolos, de forma oral, pela escrita…) e é extremamente importante para obtermos êxito em projetos. Numa empresa de pequeno ou médio porte, por exemplo, a comunicação tem vez! E para ter sucesso com seu público final é preciso arrumar a casa de dentro para fora e é aí que entra o papel da comunicação interna.

A coluna desta semana está um pouco diferente. Bati um papo bem bacana com o Tiago Augusto dos Santos, gerente de comunicação interna do Magalu. Ele atua na empresa há dez anos e contou um pouco de como funciona essa ferramenta numa empresa que chama muita atenção pelo sucesso, expansão e posicionamento, nos últimos anos.

– Como funciona, na prática, seu trabalho?

Meu time e eu somos responsáveis por ajudar o Magalu a comunicar sua estratégia, propósito e valores aos mais de 47 mil colaboradores, espalhados pelo Brasil. Fazemos isso por meio dos nossos canais internos (TV Luiza, Rádio Luiza e a Rede Social Corporativa – Workplace). Como uma empresa focada na venda e na digitalização do varejo brasileiro, nosso trabalho tem uma conexão muito forte com o negócio, com ajudar a motivar e mobilizar as equipes a atingirem esses resultados. Mas também auxiliamos nossos líderes a compartilhar com o time as principais táticas e estratégias, além de fortalecer a cultura da companhia.

– Dentre as ferramentas utilizadas por vocês, há uma bem específica: A TV Magazine Luiza. Todos os funcionários, de diferentes departamentos, podem usufruir deste material? Como funciona, de fato?

Sim. A TV Luiza existe há 16 anos, via satélite. Fred Trajano (atual CEO) e Luiza Trajano (atual presidente do conselho administrativo) foram visionários ao implementar, em 2005, um canal de TV próprio para conversar, ao vivo, com todos os seus colaboradores. Eles sabiam, desde aquela época, que as equipes seriam cada vez mais engajadas quanto mais conhecessem as estratégias e os motivos de fazerem o que devia ser feito. É muito comum na cultura do Magalu dividir a estratégia com todos que vão executá-la e colher feedbacks e sugestões de todas as áreas. A TV Luiza existe até hoje, já transmitiu mais de 800 programas e continua sendo um programa ao vivo semanal para toda a companhia, apresentada pelos próprios colaboradores, com objetivo de continuar a mostrar o que o Magalu faz e, principalmente, o porquê faz o que faz. Tem dado certo.

– Uma empresa que não possui uma boa comunicação interna é ou fica…

É ultrapassada, com certeza. Falar com seu público interno hoje é mais do que essencial, é um alavancador do negócio, do resultado. Em um mundo em que não há mais divisões claras entre o pessoal e o profissional, em última análise, seu colaborador é também um embaixador da sua marca, um “anúncio vivo” da sua empresa que pode falar bem ou mal do que você pratica. É preciso manter sua equipe muito bem informada para atingir um alto desempenho e comprometimento com o propósito, a razão de ser do seu negócio.

– Qual o primeiro passo para estruturar a comunicação interna de uma empresa? E os demais?

Conhecer o público. Conhecer a cultura da empresa. Saber o que existe e o que já foi testado e não deu certo. Na realidade, não sou muito adepto de projetar e planejar, acredito que as coisas se ordenam na prática, em movimento, no dia a dia. É ter uma ideia, testá-la, validá-la e colocá-la em execução. A realidade é o melhor teste que podemos ter. E não ter medo nem apego para mudar se for preciso.

– Na realidade do Magazine Luiza, vocês acreditam que uma comunicação eficaz tem de ser descendente, ascendente, vertical e horizontal?

Não acho que exista receita pronta, tudo depende da sua história, da sua essência e do seu público. O que não se pode é falar algo e agir diferente. Praticar o discurso é o segredo de ser bem sucedido. No Magalu temos uma comunicação aberta, de mão dupla, sempre transparente, sincera e olho no olho.  Cada companhia deve achar seu modelo e seguir o que acredita. Meu conselho é ouvir muito e falar de tudo que é relevante para a companhia também para o colaborador: melhor que ouçam de você do que lá de fora. E, com certeza, vão ouvir.

– Como garantir que todos os funcionários e colaboradores tenham acesso às informações da empresa deixando, desta forma, a comunicação clara e objetiva?

Com apoio das lideranças. Com uma cultura forte. E, principalmente, com uma comunicação focada no negócio. A prioridade da comunicação interna tem de ser a mesma da empresa. Qual o propósito da companhia? Para o que ela existe? A comunicação deve, consistentemente, martelar isso e falar sobre isso, para ser viva, rápida e estratégica. Uma comunicação que não anda junta ao negócio está fadada a ser “chapa branca” e inútil.

– Hoje, com a marca consolidada em todo o país, ainda há preocupação excessiva com o que falam da empresa lá fora? É mais fácil trabalhar a comunicação nesse contexto?

Evidentemente, monitoramos todos os stakeholders. Não vivemos numa bolha. Mas temos muita convicção do nosso propósito e seguimos firmes em torná-lo realidade, independentemente do que estão falando ou do quanto a ação na bolsa está oscilando, para mais ou para menos. Nossa estratégia é sólida, sabemos onde queremos chegar e, com muito respeito aos concorrentes e à história da empresa, trabalhamos duro para atingir nossas metas. Quando seu propósito é claro e repetido, consistentemente, por todos na empresa, a comunicação se torna mais fácil e natural. Há verdade e coerência entre o discurso e a prática. Isso é um diferencial.

– Quais características um profissional que atua na comunicação interna precisa ter e/ou dominar?

Hoje, falamos muito do antifrágil, aquele que rapidamente se adapta e se modifica, evoluindo a si mesmo em uma situação complexa ou de caos. Ser flexível a ponto de se transformar rapidamente em algo melhor a partir de um problema que se tenha. Isso é essencial. Aprender com os erros, buscar sempre soluções inovadoras e não se apegar às glórias do passado, mas fazer de cada dia como se fosse o primeiro. E particularmente: gostar de gente e saber se comunicar bem, seja por texto, vídeo ou qualquer mídia.

– Atualmente, quais os principais desafios de um profissional que trabalha com comunicação interna?

Estar preparado para a velocidade com que as mudanças acontecem. Não “envergar” e “quebrar” diante das naturais alterações de rota que o caminho vai impor. Ter jogo de cintura para negociar, redirecionar e saber trabalhar bem em equipe. Todos precisam uns dos outros para ir mais longe. A capacidade de liderar e de ajudar o time a vencer – e não apenas bater as metas individuais – é o que faz a diferença.

– Como fazer funcionários, colaboradores e diretores entenderem que a comunicação interna faz toda a diferença numa empresa, seja ela de médio ou grande porte?

No nosso caso, herdamos isso na cultura dos nossos fundadores. Eles já sabiam e defendiam isso. Em casos diferentes, imagino que o caminho seja a parceria e a empatia. Mostrar que a comunicação pode agregar ao negócio, impulsioná-lo e explicar que quanto mais o time conhece o objetivo do jogo, melhor se sairá ao jogá-lo. A comunicação dá coerência e consistência para que as equipes não apenas “vistam a camisa”, mas se unam para ajudar o time a ganhar juntos. Isso, às vezes, implicará em deixar de lado uma conquista pessoal em prol do resultado maior da equipe. Só com uma comunicação verdadeira e estratégica se pode atingir esse patamar de desprendimento individual.

– Quanto tempo, geralmente, é necessário mudar a estratégia, caso a ferramenta escolhida não surta efeito?

Uma vez li algo que me marcou, era um conselho assim: “não desista ao primeiro sinal de dificuldade, mas também não persevere até o desastre final”. Sinta. Avalie. Decida. O momento é de fazer uma mudança? Não tenha medo de fazê-la. Saiba combinar perseverança com flexibilidade. Não há um manual. Sua história e experiência lhe dirão a hora certa. Não duvide de você.

– Apostar em treinamentos e gincanas são boas estratégias?

Depende do seu público, da sua essência, como falei. Seu time gosta disso? Funciona para você? É coerente com o que você prega? Vá em frente, sem medo de decepcionar ao ousar pelo novo. Mas que seja um novo coerente com tudo que te levou até aqui.

– O que mudou, até aqui, desde quando ingressou no setor?

Tudo! Brincamos, lá no Magalu, que “o que não muda é que a gente sempre muda”. E isso não é uma verdade só nossa. Somos inacabados e estamos sempre errando e aprendendo, errando e fazendo diferente, errando e evoluindo. O público mudou, os canais se transformaram, a linguagem etc. O importante é manter sua essência e ser ágil para mudar todo o mais que for preciso.

*Stakeholders: Grupos de interesse que serão impactados por meio das ações da empresa.

*Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com

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