Enquadramento da imprensa em temas delicados

por Daniela Santos, para outrosquinhentos.com*

Dia desses, estava estudando novas pautas para a coluna e me parei pensando em como a imprensa brasileira reporta temas delicados. Suicídios, assassinos que invadem escolas.

Logo que entramos no mercado de trabalho somos orientados a ter cautela perante casos de suicídio. Entende-se que o Jornalismo é uma profissão que traz assuntos que, direta ou indiretamente, influenciam a sociedade e tratar de um tema tão complexo pode ter um efeito negativo. Ou seja, pode influenciar uma onda de suicídios.

No entanto, há um fato a se pensar: Será que, nos dias atuais, o Jornalismo ainda tem tamanha força para influenciar as pessoas? Dado que, nos últimos anos, esta profissão vem sendo tão atacada e apontada como inimiga — com o crescimento do conservadorismo no mundo.

Ainda assim, compreendo que é uma preocupação prudente. A imprensa, de certa forma, aborda essa temática quando abre espaço para debater sobre a depressão, doenças mentais, bullying. Até porque são alguns dos motivos que levam um ser humano a tirar sua própria vida.


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Há uma cartilha da Organização Mundial da Saúde destinada aos profissionais da mídia sobre como devem proceder nessas situações. Em hipótese alguma, deve haver teses que atribuam o suicídio à degradação da sociedade, mudança dos tempos. O corrido não deve ser trazido à tona de modo que soe como alternativa aos problemas financeiros, término de relacionamentos.

No caso de uma pessoa pública que tenha cometido o ato, não é função da imprensa expor fotografias e dar demasiados detalhes sobre o ocorrido, explorar o método utilizado. Jamais romantizar e criar um espetáculo em cima do fato.

É preciso ter em mente o impacto que essa veiculação terá em amigos e familiares da pessoa e agir com respeito e ética.

O que fazer para ajudar

Divulgar sinais de comportamentos suicidas com a finalidade que eles sejam evitados, informações como listas de serviços de saúde mental disponíveis, contato e endereço, como do CVV (Centro de Valorização da Vida), por exemplo. Colocar em discussão, como já mencionado no texto, pontos como a depressão, uma doença tratável e que pode associar, a longo prazo, ao suicídio.

Trabalhar juntamente com autoridades de saúde para apresentação dos fatos. Destacar as alternativas ao suicídio.

Massacres – Estamos criando heróis?

Outra abordagem que ainda gera discussão é a forma de noticiar casos de assassinatos, como na escola de Suzano – SP vitimando dez pessoas e, mais recentemente, numa creche no município de Saudades – SC, onde cinco pessoas foram mortas, incluindo três bebês.

Nesses dois casos, os assassinos eram jovens entre 17 e 25 anos. Claro que fatos como esses geram repercussão, por conta da crueldade. Entretanto, há mídias que exploram o tema ao máximo – de forma totalmente irresponsável. Produzindo um dossiê sobre a vida dos assassinos, indo em suas casas, reproduzindo vídeos da barbárie, adjetivando os textos de modo que fiquem caricatos, dando closes nas reações de amigos e familiares, tentando entrevistas a qualquer custo. Um verdadeiro circo. Puro sensacionalismo, o que não tem nada a ver com Jornalismo.

Qual o problema disso? Além da falta de humanidade e ética, a imprensa entrega justamente o que os assassinos gostariam: notoriedade. Chocar as pessoas. Os glorifica. Torna-os heróis, tentando achar explicação para o inexplicável.

O Jornalismo tem como ferramenta principal a informação, a verdade. Por que não utilizá-las para fazer a diferença e, possivelmente, evitar mais casos como esses?

Episódios desta proporção não têm explicação, mas precisamos olhar para os problemas e para as pessoas. Muitas que precisam de ajuda. É necessário ter expertise para não passar batido a veiculação de temas que motivam ocorrências desse nível, como legalização ou não de armas de fogo, banalização da violência, masculinidade tóxica, bullying… Informação! É saudável o caminho que estamos seguindo?

Como humanizar coberturas como essas? Como a informação pode ser escudo para evitarmos barbáries como essas? Não podemos insistir nos erros.

Aos colegas de profissão, gostaria de levantar o debate. Como veem o enquadramento na imprensa? Como podemos evoluir?

Não podemos desinformar. Informar e contribuir, à nossa maneira, para um mundo melhor. É para isso que fiz Jornalismo. É por isso que eu e, muitos, ainda insistimos numa profissão, infelizmente, desvalorizada.

*Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com
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