Frases que me cansam: Escolha um trabalho que você ame e nunca terá que trabalhar um único dia na sua vida

por Valeria Chociai, para outrosquinhentos.com* | Foto de Capa: Peggy und Marco Lachmann-Anke por Pixabay

Caro Confúcio, até onde eu tenha sido informada essa frase é atribuída ao senhor, então você poderia, por favor, me explicar uma ou duas coisinhas?

Você está querendo me dizer que os médicos e enfermeiros que amam salvar vidas e encontraram nisso o propósito de suas vidas estão nesse momento, tipo assim, meio que igual a passeando no parque?

Não está exaustivo ou tenso, pelo contrário, está super gostoso e divertido, porque afinal, ah, o amor é tão lindo…

Compensa tudo!

Só que não, né?

Aliás, bem pelo contrário: me parece que essa galerinha sobrecarregada está é tirando a poeira da origem da palavra trabalho como a conhecemos hoje, ou seja, tripalium, um instrumento romano usado para tortura!

Ok, eu sei que peguei pesado com esse exemplo, então deixa eu tentar outro pra facilitar a sua vida.

O senhor sabe que eu trabalhei por mais de 20 anos com gastronomia, né?

Sim, porque eu amava… mas esse não é o ponto.

Olha só, eu tenho um amigo dentista que é simplesmente apaixonado por comer e cozinhar, tanto ou até mais que eu mesma!

Por anos a fio ele juntou um dinheirinho, tá se programando pra vender o consultório e vai abrir seu primeiro restaurante em breve – realizar seu sonho!!!

Você conta ou eu conto que ele mal vai ter tempo para aparecer na cozinha pra fazer aquela tal coisa que ele ama?

E você está me dizendo que ele não vai trabalhar então, que ele não vai ter que se virar nos trinta para se transformar num exímio negociador com os fornecedores, os caras do marketing, o contador e o advogado só pra começar?

Não vou nem falar em gerir, motivar e liderar uma equipe de colaboradores… dar adeus às noites em família, finais de semana e feriados…

Eu até acho que nada mais justo do que vendermos nosso tempo para labutar com o que gostamos, mas vamos combinar que qualquer trabalho dá trabalho, né?

Confúcio, só aqui entre nós… daqui do meu ponto de vista tenho a impressão de que ele vai trabalhar pra cacete ‘com o que ama’, mas quase nunca vai ‘fazer o que ama’ – olha só que louco isso!!!

Deixando meu amigo de lado, sabia que ultimamente tem até uma galera defendendo que a gente nem deveria monetizar nossos hobbies e paixões… esse povo tá me deixando mais confusa ainda, seu Confúcio.

Inclusive, numa pesquisa que eu realizei no ano passado com pessoas que afirmam que já conseguiram desacelerar suas vidas, acredita que 8% delas me disseram que nem buscam mais realização pessoal na profissão, que para elas o serviço passou a ser apenas uma bem-vinda fonte de renda e que não mais se cobrarem por não trabalharem com esse tal de ‘o que amam’ lhes tirou um baita fardo das costas?

Elas encontram satisfação e propósito em outras áreas da vida, agora que também dispõe de tempo suficiente para isso, acredita?

Ah, e já que a gente tá aqui conversando de boas, me diz só mais uma coisa: você não acha que esse seu discurso é meio elitista, que ele coloca um peso do caramba em cima daquelas pessoas que precisam trabalhar em qualquer coisa que aparecer, por mais lamentável que seja, para pagar as suas contas e simplesmente sobreviver?

E não me venha com o discursinho de que basta fazer por merecer ou ter força de vontade para encontrar seu emprego ‘dos sonhos’ porque senão eu vou te mandar outra cartinha com esse texto aqui e mais um ou dois impropérios, afinal, não sei se o senhor sabe, mas estamos vivendo no Brasil em 2021 – acho que não tem nenhuma frase de efeito sua que nos alivie disso, né?

Ah, e não é porque amamos o nosso trabalho que deveria ser esperado da gente viver única e exclusivamente em função dele ou, pior, que podemos ser esfolados por empregadores malvados que, pasmem, muitas vezes somos nós mesmos… não é porque amamos nosso trabalho que podemos ver os limites entre vida pessoal e profissional solapados, tipo, nos empenhando sei lá eu quantas horas extras por dia porque do contrário não somos comprometidos o suficiente e talz… que podemos ser exigidos estar à disposição à qualquer hora ou lugar e, pior, tudo isso sem qualquer retorno financeiro adequado… mas tudo bem, isso já não é um problema do seu discurso… é só mesmo que me empolguei na minha indignação…

Mas, oras bolas, se trabalhamos é porque realmente precisamos, ou você acha mesmo que se a gente tivesse dinheiro ilimitado à nossa disposição as coisas seriam as mesmas?

Bom, seu Confúcio, fico por aqui esperando suas respostas – vai que elas iluminam minhas dúvidas, né?

Por enquanto, um slow hug pro senhor e um feliz dia do trabalho!

Val

P.S.: Confúcio, você ama seu trabalho?

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