Frases que me cansam: Feliz Dia das Mulheres!

“Eu não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sobre elas mesmas” (Mary Shelley, 1797-1851)

por Valeria Chociai, para outrosquinhentos.com*

Olá!

Como já te contei anteriormente as frases que me cansam são normalmente partes de discursos que ouvimos a torto e a direito e que, muitas vezes, nos são servidas como verdades inquestionáveis. O objetivo com minhas colunas daqui é tentar desmistificar algumas delas a partir do olhar do Slow Movement e da consequente produtividade saudável.

Hoje, entretanto, vou abrir uma exceção para falar sobre uma frase constantemente esvaziada de seu significado primordial: FELIZ DIA DAS MULHERES. E faço isso simplesmente pela perspectiva de uma mulher que sangra cada vez que entra em contato com o cruel mundo das notícias.

Pandemia faz condições trabalhistas das mulheres recuarem uma década na América Latina.

El País

Mulheres perdem mais emprego na pandemia.

Entre março e setembro, foram fechados 897,2 mil postos com carteira assinada, sendo que 588,5 mil eram ocupados por mulheres, segundo Caged.

Valor Econômico

Como a pandemia está expulsando as mulheres do trabalho.

Forbes

Na pandemia, mulheres perderam mil empregos no Ceará, enquanto homens ganharam 10 mil vagas.

Diário do Nordeste

Veja bem, estas não foram nem notícias pelas quais eu procurei. São informações que caíram no meu colo antes mesmo do café da manhã, um oferecimento da ‘vidarealflix’ da minha querida amiga e irmã de alma sagitariana, Carol Valis. Fazem parte “apenas” do contexto trabalhista brasileiro o que, talvez, eu até pudesse engolir – mas não posso. Não posso passar pano para o fato, inclusive, de que, de acordo com o IBGE, mulheres ganham menos em todas as ocupações, em média 79,5% do salário do homem.

Então não dá para pensar em um dia realmente feliz quando, como cereja do bolo, fico sabendo que “dados divulgados neste domingo (7) pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) mostram que foram registradas 105.671 denúncias de violência contra a mulher em 2020, tanto do Ligue 180 (central de atendimento à mulher) quanto do Disque 100 (direitos humanos), o que significa uma média de 12 denúncias por hora”. Sim, você leu certo: 12 denúncias por hora, ou seja, uma denúncia a cada 5 minutos.

Além disso, por dia, 5 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2020. Por dia, 17 mulheres denunciam estupro no Paraná. Repito: por dia. E sabe qual o pior disso? Para mim o pior é pensar na subnotificação, afinal sabemos que nem todas aquelas que sofrem algum tipo de violência denunciam ou pedem ajuda. Tento não ficar pensando quais seriam as reais taxas de violência sofrida por mulheres… e violência não é apenas a física, é também a emocional, moral, financeira… mas cada vez que escuto um FELIZ DIA DAS MULHERES eu não consigo deixar de pensar…

Quando fico sabendo que o Brasil fica fora de declaração conjunta com mais de 50 países pelo Dia Internacional da Mulher na ONU eu não consigo deixar de pensar, sofrer, me irritar.

Mas veja bem, eu não estou querendo com isso tudo dizer que não quero ser parabenizada por esse dia, não estou questionando a importância da data ou até mesmo a nossa potência. Meu incômodo está basicamente no apelo comercial que reduziu o 8M a flores e chocolates. No piloto automático de homens e inclusive mulheres que nunca souberam ou têm se esquecido da origem operária, social e política dessa data e então propagam mensagens bonitinhas e vazias que ressaltam o quanto “você é linda, forte e guerreira”.

Se bem que, para falar a verdade, por favor, me dê chocolate (que não explore nenhum tipo de mão de obra, claro) porque estou precisando – MUITO – alimentar minhas emoções. Porque estou cansada de ser forte e guerreira, afinal linda, pelos padrões vigentes, eu nunca fui mesmo. Porque estou cansada de me posicionar, de me defender, de me sentir insegura. Cansada de ver colegas lutarem até pelo direito de existir. Exausta. E seria lindo se eu fosse a única, se esse fosse um ‘privilégio’ só meu. Volta e meia me pego pensando que talvez estejam nos vencendo pelo cansaço e até por isso quando falo do Slow Movement defendo que descansar também é um ato político, mas hoje não é sobre isso a nossa conversa.

Estatura normal demais?

Bunda grande demais?

Bunda chata demais?

Pele muito branca?

Pele muito escura?

As cirurgias, os saltos, a moderna depilação genital,

as dietas martirizantes, as cintas que são um tormento:

a moda, a dor e o controle

andam sempre de mãos dadas.

Alma Guillermoprieto em Será Que Eu Sou Feminista?

E o que me consola? É saber que, infelizmente, já foi muito pior. Saio do lugar de dor e fastio para honrar todas aquelas mulheres revolucionárias que lutaram para que hoje, mesmo no meio de todo esse caos, eu possa usufruir de privilégios que um dia foram inimagináveis. Quatro séculos antes de Cristo, no banquete platônico, Sócrates diz “quem sabe mulher é sujeito e pode ter uma opinião”. Milênios depois ainda estamos nos debatendo pela mesma causa, mas hoje pelo menos muitas de nós já conseguem se sentar à mesa do banquete.

E agora, para aquecer sua alma antes do meu golpe final, gostaria de compartilhar com você um poema de Cecília Meireles chamado Reinvenção. Olha só:

A vida só é possível

reinventada.

Anda o sol pelas campinas

e passeia a mão dourada

 pelas águas, pelas folhas…

Ah! tudo bolhas

que vem de fundas piscinas

de ilusionismo… — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

Vem a lua, vem, retira

as algemas dos meus braços.

Projeto-me por espaços

cheios da tua Figura.

Tudo mentira! Mentira

da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…

Só — no tempo equilibrada,

desprendo-me do balanço

que além do tempo me leva.

Só — na treva,

fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

Encontro inspiração nas estrofes de Cecília e concordo que a vida só é possível reinventada, entretanto é mister ressaltar que nada vai mudar enquanto a gente só continuar sonhando, resmungando (que nem eu nesse texto) ou se enganando ao ouvir ou dizer FELIZ DIA DAS MULHERES de forma anestesiada. Então convido você a parar AGORA para refletir sobre o quê, dentro da sua esfera de influência, pode efetivamente ser reinventado. Como você pode agir para que as coisas sejam verdadeiramente diferentes? E olha, esse convite vale tanto para homens quanto para mulheres!

Você pode contratar mulheres?

Comprar de mulheres?

Parar de passar pano para os amigos ou familiares que fazem piadinhas machistas?

Remunerar justamente o trabalho de uma mulher?

Respeitar o direito da mulher usar a roupa que quiser, a maquiagem que quiser, o cabelo que quiser?

De ocupar o espaço que quiser?

Você pode dar visibilidade a uma mulher?

Legitimar a fala de uma mulher?

Votar em uma mulher?

Votar em quem defenda os direitos das mulheres?

O que você pode FAZER?

Descubra o que lhe é possível e, por amor, se comprometa a colocar em prática porque o Dia Internacional das Mulheres acontece a cada ano para relembrar e reiterar o quanto ainda há para ser feito. Nos ajude a garantir a saúde, a integridade e a sobrevivência de cada uma de nós que ainda não conquistou os mesmos privilégios que você e eu talvez desfrutamos. Nos ajude a pavimentar o caminho para que as próximas gerações possam olhar para nossos tempos e também se consolarem por já ter sido pior, afinal, não se enganem, essa pauta ainda vai longe.

A você, mulher, parabéns por resistir num mundo tão hostil. A você, homem, muito obrigada por ler até aqui – isso já faz uma tremenda diferença! A ambos, pessoalmente, mais que ouvir FELIZ DIA DAS MULHERES eu gostaria de ouvir EU VOU LUTAR AO SEU LADO.

Slow hug, ou seja, um abraço muito lento, carinhoso e acolhedor e até a próxima oportunidade!

Val

P.S.: Alguém sabe me dizer quem matou Marielle Franco?

*Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com



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