Frases que me cansam: Mar calmo nunca fez bom marinheiro

por Valeria Chociai, para outrosquinhentos.com

Olá!

Como já te contei anteriormente as frases que me cansam são normalmente partes de discursos que ouvimos a torto e a direito e que, muitas vezes, nos são servidas como verdades inquestionáveis. Aqui tento desmistificar algumas delas a partir do olhar do Slow Movement e da consequente produtividade saudável.

Hoje quero conversar com você sobre o mito de que ‘mar calmo nunca fez bom marinheiro’ – não acho nem que eu precise argumentar muito aqui, afinal estamos vivendo nas águas mais tempestuosas da nossa geração e você tem se sentido melhor por conta disso?

Talvez você tenha se descoberto mais forte e resiliente do que se imaginava, talvez tenha tirado da sua cartola soluções criativas para inúmeras situações e tenha até mesmo se reinventado – seja lá o que isso signifique – mas quando passa a régua, você está melhor? Se sente melhor? É um melhor marinheiro ou ser humano por conta disso? Ou só está exausto, especialista em temperar sapo e tentando fazer o possível para manter seus cacos reunidos para seguir em frente?

Durante toda vida eu e você fomos ensinados sobre os benefícios da dor, da perda, da crise – todas elas nos foram vendidas como oportunidades… talvez não deixem de ser e talvez, também, esses ensinamentos sejam uma tentativa de nos fazer aguentar mais elegantemente os baques que a vida certamente já nos deu e ainda irá nos dar, mas será que precisamos mesmo depender dos tropeços para evoluirmos? Será que precisamos viver constantemente sangrando, rompendo com os limites da nossa zona de conforto?

Aliás, “você precisa sair da sua zona de conforto” é outra das frases que me cansam, muito provavelmente porque a definição de zona de conforto que nos venderam também é um pouco equivocada. Aquele estado em que nos mantemos em nome de uma falsa sensação de segurança, sendo dominados mesmo que inconscientemente pelo medo do que não conhecemos e, principalmente, de quem seremos nós nesse lugar, isso não é zona de conforto, não é mesmo? No máximo é uma zona de resignação.

Antes de continuar, responda aí: você se sente confortável com sua vida hoje? E se não, qual é o mínimo necessário para que se sinta assim?

Um dos motivos pelos quais me apaixonei pelo Movimento Slow é porque ele reconhece que a vida não é cor de rosa, mas nem por isso romantiza a dor, o desconforto, o fracasso ou qualquer outra penúria que possa acontecer em nossas vidas. Pelo contrário, defende que você deve buscar acalmar o mar, ou, dito de outra forma, ir ao encontro da sua real zona de conforto. Então deve usufruir desse estado, desfrutar o prazer advindo dele. Você não só pode ficar na sua zona de conforto como também pode se esbaldar nela!

Isso não significa dizer que não possamos, não mereçamos ou até mesmo quem sabe não devamos expandir essa tal de zona de conforto, claro. Significa apenas que isso não precisa ser um processo doloroso! Digamos que você ali em cima chegou à conclusão de que não se sente confortável hoje – seu caminho em direção ao seu mínimo necessário não precisa de forma alguma ser na base da crise e do perrengue. Se a vida por ventura machucar, chore, sofra e, se possível, claro, faça caipirinha a partir do limão. Mas fora disso, permita-se acreditar que é possível evoluir gostosinho. Podemos aprender acertando, crescer na alegria, progredir com a satisfação. Um pequeno passo nada assustador de cada vez.

Além disso, no livro PSICOPOLÍTICA, o autor e filósofo Byung-Chul Han diz que “a palavra mágica da literatura norte-americana é ‘curar’. Ela designa a otimização pessoal, curando terapeuticamente qualquer fraqueza funcional ou bloqueio mental em nome da eficiência e do desempenho. A otimização pessoal permanente, que coincide em totalidade com a otimização do sistema, é destrutiva. Ela conduz ao colapso mental. Mostra-se como auto exploração total”. O negrito foi escolha minha mesmo: a otimização pessoal permanente é destrutiva.

Como seria outorgar-se o direito de desfrutar do que você já conquistou? Colocar o foco no que já está presente ao invés de se abater pelo que está em falta? Valorizar o ordinário ao invés de se combalir em direção ao, muitas vezes hipervalorizado extraordinário? Talvez você já esteja em mar calmo e nem esteja se dando conta do prazer que reside nessa imensidão.

Slow hug, ou seja, um abraço muito lento, carinhoso e CONFORTÁVEL, e até breve!

Val

P.S.: Se você tem vontade de desacelerar e ser um tiquinho mais auto compassivo consigo, mas ainda não vê como se aproximar dessa ideia em termos práticos, te convido a conhecer esse projeto.

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