Isso é música para os meus ouvidos. Mas, será?

Você não sabe e não se dá conta, mas muitas vezes fez o que fez ou sentiu o que sentiu porque em algum momento ouviu uma música que influenciou o percurso da sua vida

por Tiago Vilela, para outrosquinhentos.com*

Não adianta mentir porque eu sei: se você viveu os últimos 30 anos no Brasil certamente passou ou viu um monte de gente passando por debaixo da cordinha; já deve ter ouvido “My heart will go on” em pelo menos uns 4 casamentos; já mandou “Beijinho no ombro” pra sua inimiga dando ao o conceito de “inveja” a palavra “recalque” e já associou a época natalina à foto da cantora “Simone” segurando uma taça ao som de “Então é Natal.”

O universo musical influencia não só a sua história, mas também o contexto social em que vivemos, o que inclui a forma de pensar, o vocabulário e o significado das coisas.  Não tá tranquilo e nem favorável? Relaxa se não a ideia não encaixa, coleguinha. Segue o fluxo que você vai entender.

Stranger Things” é uma série produzida pela Netflix que e se tornou uma das produções mais bem sucedidas da plataforma de streaming. Recentemente lançada, a quarta temporada fez com que a música “Running Up That Hill” (que foi lançada na década de 80 e que seria facilmente esquecida pelas gerações seguintes) se tornasse uma das mais ouvidas do mundo no mês de junho de 2022.

Você não vê “Stranger Things”? Não tem problema. Esse texto não é sobre a série (que eu shipo, curto, assisto, comento, compartilho e assim me comporto como um bom “oitentista”  fã incondicional do Super Mário Bross, Goonies, A História sem Fim e De volta para o futuro), mas sobre o poder real que música tem nas nossas vidas.

Na série, “Max”, uma das personagens, está em perigo e perto de morrer pelas mãos do vilão “Vecna.” A música, então, se torna uma ferramenta crucial no processo de salvação: ao escutar “Running Up That Hill” Max escapa da morte. Pelo menos por enquanto.

Por si só, o som da música estimula nosso sistema nervoso central e entre os resultados está o fato de o cérebro liberar substâncias de prazer, de bem estar e de conforto. A música também aciona a nossa memória, marca momentos especiais como casamento, baile de formatura, rituais ou cultos religiosos, fases da vida. Por meio da melodia e das palavras emitidas pela música, conseguimos trabalhar nossas emoções. De forma mais prática, ela modifica o clima mental e o nosso humor, geralmente de forma positiva.

Na experiência de Max na quarta temporada da série (lançada em junho e julho de 2022), a música a ajudou a tirar sua atenção de elementos negativos, principalmente da culpa que ela sentia. É mais ou menos como se o poder musical nos fortalecesse em vários aspectos e assim nos ajudasse a lidar de forma mais assertiva, mais efetiva e mais otimista com os nossos fantasmas interiores, como nossas frustrações, com nossos medos, com a ansiedade, com a tristeza, com a negatividade.

Então a música é a solução para todos os nossos problemas existências? Calma. Músicas específicas podem trazer à tona lembranças das quais você quer se livrar. Além disso nosso sistema psicológico adaptativo procura sincronizar e ajustar nosso funcionamento interno ao ambiente. Dependendo do tipo de música, da melodia, da batida, da letra, da harmonia, por exemplo, facilmente podemos nos inclinar a sensações desagradáveis, negativas, ou à tristeza, ou à raiva, ou à agitação psíquica ansiosa, entre outros.

A música tem uma intenção por trás. Perceba a diferença entre as Cantigas Infantis e Bossa Nova, por exemplo. Músicas infantis são mais trabalhadas em acordes simples, de cadência mais otimista, mais animada, com melodia muito mais previsível e irritantemente repetitiva. Esse tipo de música funciona com as crianças porque sua construção harmônica respeita o universo cognitivo infantil e está de acordo com a fase do desenvolvimento. Já Bossa Nova é aquela coisa de carioca na praia no fim de tarde.

O volume da música também influencia – quem tem vizinho sem noção que o diga. Uma música tocada em volume extremamente exagerado pode atrapalhar nossa concentração, nossa meditação, nosso sono, nosso estudo, nosso filme na tv. Mas, acredite, também podem ajudar. Tem gente que gosta de ouvir música alta e pesada pra estudar ou trabalhar, assim como a música mais calma ajuda a relaxar e até a meditar e pegar no sono.

Serve pra todo mundo?

Não. Premissa básica da Psicanálise: cada um com seu esfíncter. Somos pessoas diferentes que tem gostos, opiniões e valores muito peculiares. Nem todo mundo gosta de música no trabalho; nem todo mundo gosta de pagode; nem todo mundo quer ouvir Zezé de Camargo ou Pablo Vittar; nem todo mundo recorre a Jesus Cristo para remover aquela pedra (embora, atualmente, todo mundo esteja precisando de um milagre…) e tem gente que tem medo da musiquinha do caminhão do gás.

É preciso ter em mente que “a salvação” é individual, é pessoal, é subjetiva porque a história de vida, a memória, o sentido e as interpretações dadas às experiências dependem de cada um. É preciso saber o que funciona pra você. Dica de ouro? A de sempre: o autoconhecimento, que é um “Rebolation” contínuo. E testes. Faça testes. Ouça música e preste atenção no que ela faz você sentir, em como ela interfere no seu humor. Você vai se surpreender com o resultado.

Ah, e outra coisa: cuidado com o que você consome do mercado fonográfico. Músicas que estão presentes na nossa rotina podem impactar o nosso humor e, em casos pontuais, até influenciar em nossas decisões. Então, “Acorda, Pedrinho!”  Dependendo do que você ouve, você “vai passar mal, papai!

*este conteúdo é uma contribuição de Tiago Vilela, músico e psicólogo. Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com
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