Manipulação mental, sentimento de inferioridade e a busca pela superioridade

Nosso sistema psíquico é dotado de habilidades de defesa e isso inclui auto enganação, tapeação, invenção de história e a distorção de informações

por Tiago Vilela, para outrosquinhentos.com*

Li, por esses dias, a história de um Coaching que levou uma galera pra escalar uma montanha no interior de São Paulo. Mesmo tendo sido orientadas por profissionais a desistirem por conta das péssimas condições climáticas, morro acima lá se foram as pessoas que buscavam superar desafios e romper barreiras mentais.

Pra tentar entender o processo psicológico que levou esse grupo de homo sapiens metidos a arriscar a própria vida, basta uma aula primária de Psicologia, simples e básica sobre o processamento e a codificação mental de informações direcionadas. Poeticamente falando, a arte de transmitir informações de forma direcionada ao seu receptor e a abertura de quem recebe a informação para percebê-la da forma como seu emissor quer que seja entendida. Já vou explicar.

Nosso sistema psíquico é dotado de habilidades de defesa e isso inclui auto enganação, tapeação, invenção de história e a distorção de informações. Coisa super normal e natural do nosso funcionamento psicológico. É assim: nossa mente inventa história, combina informações e, em alguns casos, até se deixa manipular para diminuir a angústia, porque a verdade pode gerar ansiedade e a ansiedade alimenta a angústia que deixa a mente e o cérebro desconfortáveis ao mesmo tempo que trabalham para se sentirem confortáveis, seguros e tranquilos novamente.

E é assim que começamos a responder à pergunta: por que diabos, diante de uma situação de perigo objetivamente constatada, somada aos alertas dos profissionais que se recusaram acompanhar o grupo a subir a montanha por conta do alto risco natural, as pessoas se colocaram numa situação que poderia ter resultado em tragédia?

A resposta simplificada é que o nosso cérebro gosta de trabalhar tranquilo, e para isso busca as soluções mais rápidas, mesmo que isso signifique se deixar manipular. Nossa mente se apega a qualquer coisa que nos transmita segurança, o que não significa que vamos abrir mão da vaidade, da prepotência e da necessidade de se sentir superior.

Diante da orientação negativa dos profissionais que estavam ali para guiar a subida do povo e da desistência de parte do grupo, o relato é de que o Coaching discursou sobre o poder da mente e a fraqueza humana, ensinando a lição real de que desistimos das coisas por medo, e é esse medo que nos impede de grandes conquistas. Tudo faz sentido.

Acontece que o enquadramento dessa informação vem justamente num contexto que provoca o sentimento de humilhação daqueles que queriam desistir. Nossa mente se sente angustiada quando se sente humilhada e quer se livrar dessa angústia a qualquer custo.

Alfred Adler, um estudioso do comportamento humano que é referência pra Psicologia, discorreu sobre esse mecanismo psicológico, explicando que, naturalmente, diante de situações em que nos sentimos inferiores, a tendência é buscarmos soluções para superar esse sentimento de inferioridade.

Leia também: Tiago Vilela lança nova música: “Gratidão”

Assim, somam-se a necessidade imediata cerebral de sentir-se confortável e a angustia psicológica que visa à superação da posição inferior. Fica facin facin comprar um discurso de alguém que fala bonito, se veste bem e vende a imagem de um homem bem sucedido financeiramente, capaz de grandes conquistas. Entendeu?

Esse é um mecanismo utilizado no discurso para convencer pessoas: você as induz à sensação de que são inferiores a você ao mesmo tempo em que vende a conversa de que elas podem se superar e ser igual a você ou ainda melhor. Como o cérebro gosta de soluções rápidas, é muito comum que a gente se apegue a imagens, figuras, pessoas ou amuletos que nos trazes segurança e prometem no ajudar a alterar o status de objeto humilhado para agente humilhador. O resultado? O Corpo de Bombeiros, serviço público pago com o seu dinheiro dos impostos, teve de ser acionado para realizar um resgate que durou cerca de 10 horas.

O discurso do Coaching, posterior ao fato, reforça essa tática dele. As frases “Quem não quer correr risco fica em casa vendo stories”, “algumas pessoas não suportam pessoas que correm risco” e “se você é uma pessoa que não corre risco, dificilmente você vai governar ou chegar no topo” – ditas por ele quando indagado sobre o fato – exemplificam a dinâmica de provocar sua sensação de ser inferior. Equivale a dizer que se você não se comporta da maneira como ele indica, você é inferior a ele. Subitamente seu cérebro identifica um conflito mental provocado pela angustiante sensação de humilhação. Aí, numa situação dessa, se você não tem uma autoconfiança e uma autoestima bem trabalhadas, a sua mente pode te enganar e você vai na onda pra se livrar da sensação desconfortável que é se sentir inferior.

Sou eu ninguém pra criticar atitude dos outros, mas os meus estudos e minha experiência, não só como Psicólogo, mas também como pessoa, podem ajudar as pessoas a refletir e tornar suas decisões mais efetivas, sem muitos riscos de vida.

Se o objetivo é se fazer uma pessoa melhor, mais dona de si que realiza grandes coisas, por meio do enfrentamento de desafios, você pode, por exemplo, montar um projeto de  alfabetização de idosos iletrados, ou ensinar matemática para crianças carentes, estudar e ensinar direito civil e constitucional, de graça, pra população se tornar mais consciente de seus direitos, desenvolver e executar um projeto de ação anticorrupção governamental, desenvolver e lutar por um projeto de despoluição do rio Tietê. Meu Deus, quanta coisa desafiadora… Ações que te farão se sentir uma melhor que ainda reverter-se-ão como benefício social em vez de provocar uma ação de serviço público decorrente da sua vaidade.

Se você que subiu a montanha e depois de descer, às custas dos serviços de quem não concordou com a sua subida, se tornou uma pessoa mais forte, mais potente e capaz de destruir vários problemas que pareciam impossíveis, que bom! Só acho que você tem que devolver pra sociedade o serviço do bombeiro. Caso contrário, baby, lamento informar, mas o seu cérebro só atuou na tentativa justificar a grana e o tempo que você gastou nessa aventura.

*este conteúdo é uma contribuição de Tiago Vilela, músico e psicólogo. Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com
Quer ficar por dentro de tudo o que fazemos e receber nossas novidades primeiro? Faça parte da lista de Assinantes OutrosQuinhentos! É fácil, é rápido e é grátis! Envie QUERO para o nosso whatsapp (12) 99190 6677 ou clicando aqui.


, ,