Na minha série “Você precisa conhecer”, o norte americano e triatleta Chris Nikic

Ele não é um norte americano comum, muito menos um triatleta comum. Chris é portador de Síndrome de Down e em novembro do ano passado se tornou o primeiro atleta com a alteração genética a completar um IronMan

por Diogo Oliveira, para outrosquinhentos.com* | Foto de Capa: Michael Reaves | Getty Images | IRONMAN

A síndrome de Down foi descrita pela primeira vez em 1866 pelo pediatra inglês John Langdon Down e é causada pela presença de três cromossomos 21 em todas ou na maior parte das células de um indivíduo. Isso ocorre na hora da concepção de uma criança. As pessoas com síndrome de Down, ou trissomia do cromossomo 21, têm 47 cromossomos em suas células em vez de 46, como a maior parte da população. As pessoas apresentam características como olhos oblíquos, rosto arredondado, mãos menores e comprometimento intelectual.

A trajetória desse garoto de 22 anos começou em Maitland, na Flórida, onde vive até hoje. Com 5 meses de vida, ele precisou fazer uma cirurgia cardíaca e ficou sem andar até os 4 anos de idade. Ele só começou a se alimentar corretamente com alimentos sólidos aos 5 anos e, além disso, aos 17 anos passou por quatro cirurgias no ouvido e até hoje enfrenta problemas de equilíbrio, tempo de reação lento e baixa força muscular. Ou seja, tudo indicava que ele não poderia ser um atleta, mas Chris provou que todos estavam errados.

Para quem não entende do esporte nem da tradicional prova da franquia vamos contar como ela nasceu: a história dessa corrida é fascinante. Em 1978, em Oahu – Havaí, 15 homens se reuniram para tirar uma dúvida: quem eram os melhores atletas entre nadadores, ciclistas e corredores?

Leia também: na estreia de Diogo Oliveira como colunista, entenda porque o movimento antivacina aumenta entre os atletas. E mais: Qual a diferença entre Tom Brady e os outros aposentados do futebol americano?

A competição para responder à questão veio do comandante da marinha americana John Collins e as distâncias surgiram de três importantes provas havaianas: a travessia de 3,8km de natação de Waikiki, a volta ciclística de 180km ao redor de Oahu e a tradicional maratona de Honolulu (42.195m). Quem terminasse a prova em primeiro lugar seria o “homem de ferro”. Dos 15 participantes, 12 completaram. O vencedor foi Gordon Haller (especialista de comunicações da Marinha), que fechou a prova em incríveis 11h46min58seg. Hoje a prova acontece em vários países. No Brasil a sede é Florianópolis.

Chris Nikic começou a praticar esporte há quatro anos e não parou mais. Foram diversas provas de natação em águas abertas, corridas longas e horas em cima da bicicleta. Era hora de dar um passo maior, foi quando há dois anos Chris decidiu se tornar o primeiro atleta da história com Síndrome de Down a completar a prova.

Fora isso, ele diz que ama os holofotes que acompanham seu sucesso nas competições. Em um mundo em que sua condição poderia gerar isolamento social e olhares estranhos de fora, ele vê isso como uma oportunidade de se conectar com os outros.

“O IronMan não perdoa e Chris não teve folga, foi necessário um nível de coragem e resistência mental. Ele é confiante em todas as suas práticas e tem o que é preciso para superar o desafio”, diz o treinador de Nikic, Dan Grieb.

A batalha estava traçada e a prova escolhida, foi no dia 7 de novembro no IronMan da Flórida. Em uma entrevista para a ESPN americana Chris relata a prova: “Os quilômetros percorridos em cima da bicicleta foram os piores. É o que eu menos gosto, porque minhas mãos e glúteos doem por pedalar por tanto tempo. No quilômetro 64, fui picado por formigas-de-fogo, o que doeu muito e fez minhas pernas incharem. Depois, no quilômetro 80, caí da bicicleta e machuquei o joelho, quadril e ombro. O medo e a dor me fizeram ir devagar e fiquei para trás”.

Com dor e cansado, ao chegar no quilômetro 21 da corrida, Chris conta que só pensava em desistir. “Cada vez que ficava muito difícil, meu pai vinha me dar um abraço e me lembrar dos meus sonhos. Ele sempre diz que me ama, que tudo vai ficar bem e me faz a mesma pergunta: você vai deixar sua dor ou seus sonhos vencerem? E eu sempre respondo da mesma forma: São meus sonhos que me fazem continuar quando fica difícil”.

Depois de exaustivas 16 horas, 46 minutos e 9 segundos, Chris entrou para a história do triathlon mundial.

Para outras pessoas com síndrome de Down apaixonadas por esportes, ele deixa um recado: “Comece fazendo algo que você goste, divirta-se e concentre-se em melhorar 1% todos os dias. Vá devagar e com o tempo, você ficará surpreso com o que pode fazer. Fui o último colocado nas Olimpíadas Especiais do ano passado. Todos os outros atletas não tinham síndrome de Down, então eles foram muito mais rápidos do que eu. Mas trabalhei muito e agora sou o único Ironman. Vá devagar e divirta-se”.

Espero que tenha gostado de conhecer esse exemplo de motivação. Logo menos eu volto para te apresentar outra história que nos faça refletir sobre a capacidade humana de se superar.

*este conteúdo é uma contribuição de Diogo Oliveira, jornalista e graduando em Educação Física e colunista em outrosquinhentos.com. Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com
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