“Na rua já fui chamada de mentirosa porque não tenho ‘cara de pessoa com deficiência'”

Taís gosta de ver o céu estrelado, de estar com a família, com os amigos, de dar risada, de bater um papo. Ela cursa Pedagogia e a deficiência não a define

Da Redação

Taís Santana Leite tem 20 anos, trabalha, faz faculdade e adora estar com os amigos. Talvez, se você passasse por ela na rua, nem perceberia que ela tem deficiência intelectual. O diagnóstico veio aos sete anos de idade, após enfrentar muita dificuldade para entender a matemática na escola.

“Minha mãe percebeu que eu tinha muita dificuldade com a matemática e por mais que eu estudasse muito, eu não conseguia entender a matéria. Passamos por vários médicos que não descobriam o que era, até que cheguei a APAE DE SÃO PAULO e, finalmente, tive o diagnóstico”, conta.

A aceitação veio aos poucos, já que há alguns anos não se falava muito sobre o assunto e até os próprios pais careciam de informações. “Foi um choque para toda a família. Eu só sabia que tinha uma deficiência, mas não sabia quais eram as características e por que tinha dificuldade em uma determinada coisa. Hoje, temos mais amparo para os pais saberem lidar com os filhos”, relata.

Com as terapias de estimulação e apoio psicológico, Taís conseguiu finalizar os estudos, entrar na faculdade de pedagogia e no mercado de trabalho. “Entrei como atendente de RH. Com o tempo, o diretor gostou muito do trabalho e me colocou na recepção da empresa. Além disso, me formo em pedagogia ano que vem e meu TCC falará sobre a inclusão das pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho”, diz.

Apesar das conquistas na vida pessoal e profissional, Taís ainda tem de lidar com o preconceito no dia a dia. A deficiência intelectual, por não ser algo visível, ainda é motivo de discriminação e confusão entre as pessoas. “Recentemente, estava passando pela catraca do ônibus e um homem me abordou dizendo: nossa, usando carteirinha de deficiente sem ser! Respondi dizendo que tenho deficiência sim, mas ele não acreditou e falou: mentira! Eu nunca vi uma pessoa com deficiência fazer faculdade. Encerrei a discussão falando que sou uma pessoa com deficiência sim, mas me esforço para superar”, revela.

Na faculdade, a jovem também enfrenta dificuldades, por não ter os apoios necessários para entendimento da matéria. Pela Lei Brasileira de Inclusão, ela tem direito a provas adaptadas, mas em três anos de graduação, nunca conseguiu. “Quando eu recebi o diagnóstico, ouvi que não iria passar do ensino fundamental. E graças aos estímulos, eu venho superando cada vez mais. Eu tenho muita dificuldade em entender certas matérias na faculdade, mas peço ajuda as pessoas e com esforço, estou conseguindo superar”, pontua.

Além da faculdade e trabalho, Taís participa do Programa de Autodefensoria da APAE DE SÃO PAULO junto com outras pessoas com deficiência intelectual. O principal objetivo do grupo é lutar pelos direitos das pessoas com deficiência intelectual e para que mais ninguém seja discriminado. Eles participam de audiências públicas, conselhos municipais e demais atividades políticas. “Você saber dos seus direitos e compartilhar suas experiências é algo tão enriquecedor não só para as pessoas com deficiência, mas para as pessoas que não sabem o que é”, conta.

Taís gosta de ver o céu estrelado, de estar com a família, com os amigos, de dar risada, de bater um papo. A deficiência não a define.

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