O carnaval emocional, uma reflexão de Tiago Vilela

O Carnaval é uma das formas mais simples pra gente explicar as funções básicas da nossa vida emocional, com base no funcionamento psíquico

por Tiago Vilela, para outrosquinhentos.com*

Trata-se de uma festa tradicional, uma espécie de “VALE CARNE” que permite o extravasamento de fantasias íntimas, ocultas, veladas, recalcadas – no sentido psicanalítico – e escarara   uma batalha histórica entre instintos primitivos nascem com a gente  e as regras de conduta social.

Acontece que, por natureza, nosso sistema psicofisiológico anseia por saciedade de necessidades diversas, parte delas emocionais, mas muito intensa e mais próxima da nossa realidade concreta, as necessidades dos nosso sistema biológico. Esse anseio por saciedade atende, sobretudo, ao objetivo de manter o equilíbrio do nosso organismo e da interrelação existente entre mente e corpo.

As regras sociais são os principais obstáculos para a saciedade dessas necessidades. Imagine que você está com muita mas muita raiva de um atendente de prestação de serviço de comunicação incompetente – sim, as operadoras de sistema de comunicação via internet e celular realmente nos tiram do sério – e que você gostaria de agredí-lo fisicamente. Por uma série de questões que envolve fundamentações no Código Civil (você pode ser preso por isso), pelo senso comum (quem agride, perde a razão) e pela disposição de espaço – esses atendentes podem estar em qualquer lugar do país e você nunca vai conseguir chegar até ele – o instinto da raiva é reprimido, não é atendido e vida que segue.

Em uma leitura psicanalítica, entende-se que esse conteúdo reprimido gera uma energia emocional que não se contenta em ficar guardada dentro de uma caixa, ela não aguenta. É tipo aquela coxinha gordurosa que a gente come numa barraquinha de rua depois das 23 horas que bate no estômago e aí fica ali conversando com a gente até a gente fazer alguma coisa – tomar um sal de frutas, por exemplo – ou até que o corpo resolva do jeito dele. De alguma forma, essa energia vai fluir pra algum lugar.

Em se falando de vida emocional, precisamos partir da premissa que nosso sistema psicológico se forma, se desenvolve e comanda o nosso comportamento impulsionado pela força mental que fazemos para equilibrar nosso anseio por satisfação instintiva com a aceitação social. Os nossos desejos reais, muitas vezes ocultados e escondidos, as nossas reais intenções, os nossos reais pensamentos, julgamentos e sentimentos são, em sua grande parte, reprimidos pelo senso social. Se não houver um equilíbrio, tudo desanda, o balde transborda e a coisa fica feia. E é aqui que entra o Carnaval: a festa do instinto que vê a liberdade social para manifestar fantasias e desejos diversos.

Homens se vestem de mulher, crianças se vestem dos mais diversos personagens lúdicos, glúteos são colocados à mostra; muita gente agindo feito babaca, alto índice de importunação sexual, exagero alcoólico, beijinho no ombro, algazarra e som alto noite adentro. É a festa do instinto primitivo trazendo pro concreto o lado irracional e antissocial do ser humano, regido pela lei do “agora pode porque é de brincadeira, mas a satisfação é de verdade.”

É mais ou menos dessa forma que nosso aparelho psíquico funciona. Todas aquelas emoções e desejos, sentimentos, instintos que vamos guardando, seja qual for o motivo, se mantém vivos dentro de nós, de nosso sistema emocional, como uma energia guardada, acumulada. E o que é energia não desaparece, mas se gasta. Para ser gasta, precisa achar uma vazão, uma janela, uma porta de saída.

Quanto mais se acumula, mais forte essa energia vai se tornando. E nosso organismo vai encontrando maneiras de utilizar essa força. É quando tem origem a doença psicossomática, ou seja, doenças físicas que tem origem enigmática, com raízes no nosso psiquismo. Ainda podemos ter aí síndromes psicológicas, depressão, surtos de ansiedade, fadiga. Em outras palavras, o resultado dessas emoções acumuladas e reprimidas é o Carnaval do nosso sistema nervoso, tipo, agora tá tudo liberado, dá pra sair por aqui, então vamo lá!

E é por isso que o caminho é sempre o equilíbrio e a temperança: guarda um pouco, solta um pouco, repensa o outro pouco e ressignifica o resto. Terapia pode ajudar, mas como já dizia minha avó, o melhor remédio é sempre a prevenção. É importante a gente buscar, de forma contínua, o autoconhecimento e agir conforme nossos sentimentos e sistemas de valores; se estivermos errados no que pensamos, podemos corrigir a partir da compreensão do erro, e isso é também um processo de autoconhecimento.

Agora, é bom fazer isso antes do Carnaval, porque durante o feriado nada funciona, nem os consultórios terapêuticos, e depois do Carnaval não dá pra curar as feridas só com beijinho no ombro. Visite-se o ano todo. Há várias formas de terapia, busque uma que caiba na sua rotina e no seu bolso. Às vezes sai até de graça…

Não é pro bolso de todo mundo se banhar em Fernando de Noronha, como outrora fizera Marquezine; mas a terapia pode estar ao alcance de todos, é só buscar alternativas.

Então, terapeute-se!

*este conteúdo é uma contribuição de Tiago Vilela, músico e psicólogo. Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com
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