Pandemia sinaliza mudanças nas linhas de crédito, aponta especialista em finanças

Baseado em números do Bacen, Victor Loyola faz análise da atual situação que o brasileiro enfrenta hoje

por outrosquinhentos.com

Novas concessões de crédito foram amplamente impactadas pela pandemia, tanto para pessoa física, quanto para pessoa jurídica. Seus efeitos foram assimilados de maneira diferente nos dois segmentos.

Para pessoa jurídica, o crédito rotativo (de curto prazo) caiu 53% em relação à expectativa do 2⁰ trimestre, que girava ao redor de R$ 40 bilhões e registrou R$ 26 bilhões, segundo dados do Banco Central (Bacen). Essas são geralmente linhas de curto prazo que financiam o capital de giro das empresas ou alguma necessidade de caixa emergencial.

Nas linhas de longo prazo, não rotativas, a queda relativa foi mais branda (-18%), mas representou um valor bem mais alto, de R$ 67 bilhões. Essa redução, mensurada em todo sistema financeiro sob o guarda-chuva do Bacen, já é líquida das ações do governo efetuada para mitigar os efeitos da pandemia.

Em outras palavras, houve um fluxo médio mensal de R$ 22 bilhões a menos do que o usual esperado para esse trimestre (sem o efeito do vírus). Por outro lado, observou-se também a redução na taxa de juros média, que caiu de 1,10% ao mês no 1⁰ TRI para 0.94% ao mês no 2⁰ TRI, certamente influenciada pelas linhas subsidiadas pelo governo e pela maior aversão a risco das Instituições Financeiras (IFs).

“No consolidado, entre crédito de curto e longo prazo, o universo das empresas foi impactado em R$ 80 bilhões a menos em desembolso de crédito no trimestre de Abril a Junho. Trata-se de uma demanda que não desaparece e permanece reprimida, à esperada da recuperação econômica e da flexibilização do apetite de risco por parte da IFs”, explica Victor Loyola, CoCEO da ConsigaMais+.

Para pessoa física, explica Loyola, o quadro é parecido, mas carrega algumas particularidades. “O crédito rotativo é muito mais relevante no segmento pessoa física devido ao peso das compras à vista no cartão de crédito, que representa usualmente entre 40% e 50% do total de novos desembolsos em um único mês. Abrimos aqui um parêntese para explicar que a compra à vista do cartão equivale à utilização de uma linha de crédito (limite) onde o consumidor recebe um pequeno prazo de carência para efetuar o pagamento. Não estamos fazendo referência ao ‘rotativo’ do cartão, cujo volume representa em média 20% do que temos no cartão à vista, a taxas reconhecidamente exorbitantes”.

Feito esse esclarecimento, cabe destacar que o crédito rotativo na pessoa física caiu 34% em relação ao esperado no trimestre, equivalente a uma média de R$ 31 bilhões/mês, girando em R$ 92 bilhões contra uma expectativa de R$ 123 bilhões, contemplando as linhas utilizadas do cheque especial e do cartão de crédito. “Como ambas já estão aprovadas e geralmente operam com grande ociosidade em relação à ocupação do limite, essa redução está diretamente relacionada à queda no nível de gasto, e como veremos mais adiante, a um volume maior de refinanciamentos”, conclui.

Loyola avalia, com base nos números, que o consumidor, muito mais cauteloso por causa das incertezas trazidas pela pandemia, geralmente confinado e com menor mobilidade, passou a gastar menos e quando possível, procurou resolver suas pendências financeiras. “Há de se considerar também que o auxílio emergencial despejado na economia nesse período possivelmente colaborou com a menor incidência de gastos no cartão, alívio na ocupação do cheque especial e com a aceleração de operações de refinanciamento”.

Refinanciamentos

O volume de refinanciamentos ou acordos no 2⁰ trimestre desse ano foi o único produto que registrou crescimento relevante , com +41% sobre o usual, atingindo um desembolso de R$ 25B contra uma expectativa de R$ 15B, a uma taxa de juros também menor, de 2.82% a.m contra 3.31% a.m no trimestre anterior.

“Nota-se que o movimento do consumidor para equacionar seus problemas financeiros. Se excluirmos o produto ‘refinanciamento’, o impacto no desembolso de novas concessões nos demais produtos não rotativos foi de -26%, uma queda de R$ 39B contra as expectativas do trimestre sem pandemia”, explica.

Dos produtos de longo prazo, aqueles que experimentaram maior queda foram os de financiamento de Auto (-59% ou R$ 11.6B) e Consignado privado (-56% ou R$ 2B), sendo que esse último experimentou também uma redução na taxa média (de 2.43% para 2.17% de um trimestre a outro), possivelmente decorrente da segmentação menos arriscada dos novos empréstimos. O Consignado público (-23$ ou R$ 5.8B) e o Crédito pessoal sem consignação (-8% ou R$ 2.7B), também caíram, o último com redução substancial na taxa média (6.1% a.m para 5.0% a.m). O Crédito imobiliário (-3%), Crédito rural (0%) transitaram ao redor das expectativas e não foram impactados pela pandemia, assim como o Consignado INSS, que inclusive chegou a crescer 7% (R$ 1.7B).

De forma geral, acredita Loyola, a tendência de queda nas taxas de juros, tanto para PJ quanto para PF, que tem ocorrido de maneira gradual desde 2015, intensificou-se durante a pandemia. É possível que parte dessa redução adicional seja atribuída ao maior rigor na seleção dos tomadores por parte das IFs, pois quanto menor o risco, menor a taxa. “Nesse caso, não seria uma queda genuína, mas sim ocasionada por uma mudança de ‘mix’. Trata-se de um fenômeno a ser monitorado no período pós pandemia, à medida que os volumes se restabeleçam. Como o custo de captação está em seu menor nível histórica, é realmente esperada uma redução mais intensa das taxas aos clientes finais no mercado, como um todo”.

Em resumo, houve grande redução nos desembolsos de curto prazo para as empresas. Muitas delas devem ter experimentado dificuldades em renovar suas linhas. Nos produtos de longo prazo, a despeito do esforço do governo, o efeito líquido em todo sistema também foi o de redução no volume de concessão, na ordem de 20%, bastante significativo.

No caso de pessoa física, percebe-se um movimento de cautela do consumidor, com redução significativa nos gastos de cartão e utilização do limite de cheque especial e aumento relevante no saldo de refinanciamento. No crédito de longo prazo, houve uma redução mais acentuada em alguns produtos como Auto, consignado privado e público e um menor impacto no crédito pessoal sem consignação, crédito imobiliário, rural e consignado INSS. Outras modalidades, menos relevantes, também despencaram em novas concessões (microcrédito, arrendamento mercantil, etc).

“À medida que a normalidade seja retomada, é esperado que o nível de consumo volte a subir, assim como a oferta de crédito nas modalidades mais impactadas”, acredita o especialista.

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