Primeiro de abril: no fim das contas, mentir é bom?

“Quem caiu, caiu, caiu primeiro de Abril” – dizia o Trem da Alegria para as crianças da década de 80. Na brincadeira da “casca do ovo,” título da canção lançada em 1986, está escancarada a mentira celebrada no mês de Abril – celebrada, sim. Há um dia oficial da mentira, e se existe um dia inteirinho culturalmente reconhecido e dedicado a algo, isso é uma forma de celebrar e reforçar o seu valor

por Tiago Vilela, para outrosquinhentos.com*

A mentira vem sendo fabricada pelo povo através história desde Adão e Eva (que por si só já merece um artigo; há uma discussão interessante entre estudiosos dos contos bíblicos acerca de quem mentiu pra quem nessa história). Fatos históricos, antigos, deram o título de “tolos de abril” na França para fundamentar o nosso dia da mentira. Aqui no Brasil, lá nas primeiras décadas dos anos 1.800, mentiram dizendo que Dom Pedro havia morrido. E galerinha Z-Alpha regozijando-se achando que tinha inventado a Fake News…

Assumindo este pressuposto, de que a mentira estava lá nos primórdios da humanidade, entendemos que ela é parte do nosso sistema simbólico e psíquico, que estão associados diretamente à nossa habilidade de comunicação.

O fato é que a gente curte tanto uma mentira que ela tá virando até celebridade. Prova disso é o sucesso das frequentes produções audiovisuais cinematográficas que enaltecem as façanhas de mentirosos que são descritos praticamente como o perfil atualizado de Robin Hood. Produções como “Inventando Anna, O Golpista do Tinder, Prenda-me se for capaz” – todas histórias baseadas em fatos e pessoas golpistas reais – ressaltam, sobretudo, com muito glamour, a inteligência, a astúcia, a articulação cognitiva e os resultados positivos (o que em Psicologia Comportamental podemos chamar de recompensas) das mentiras, e isso deixa a gente tolamente fascinado e até com um certo nível de recalque, como diriam os pensadores contemporâneos.

E Isso tem fundamento teórico? Tem. Alfred Adler e Karen Horney, duas referências para a Psicanálise, indicam, em seus estudos, que existe um movimento psicológico acionado quando nos deparamos com uma necessidade de superar situações em que nos sentimos hostilizados, agredidos, humilhados, inferiores, oprimidos, injustiçados. Não faz sentido? Calma, já vou explicar.

O que pode acontecer é uma identificação com a atitude anti-heroica reparadora de fantasias de opressão. Nesse universo em que nos sentimos humilhados, incapazes, limitados por forças alheias, injustiçados pela corrupção, pela manipulação governamental, pelo preço da gasolina, pela utilização mascarada da legislação, constatar que tem gente burlando todo esse sistema e tirando vantagem disso é reconfortante. Esses “pop criminals stars” representam uma parte do nosso sistema simbólico, aquela em que somos corajosos e inteligentes o suficiente pra passar por cima de todas as adversidades, e sempre se dar bem no final. É como se houvesse uma maneira de sair do lugar de golpeado para tomar o papel de golpista.

É claro que também condenamos essas atitudes. Primeiro porque isso nos fere quanto cidadãos politicamente corretos e o golpe alheio nos coloca frente a nossa revolta de saber que,  enquanto fazemos tudo certinho, alguém está se dando bem por aí burlando as regras que seguimos. Segundo porque nos colocamos na situação da vítima (empatia);  e terceiro é por inveja mesmo, quando reconhecemos que não somos tão inteligentes, sagazes e corajosos, o que pode fazer com que a gente se sinta otário.

E no fim das contas, mentir é bom? Por que mentimos?

Entre diversos fatores, mentimos por autodefesa como instinto de preservação, ou para tomar e manter o controle, ou por receio de magoar as pessoas ou medo de descobrirem nossas fantasias encobertas ou nossas atitudes vexatórias, por medo de sermos excluídos, ou sermos punidos; mentimos por necessidade de satisfação ou para sermos aceitos num grupo; mentimos no currículo e na entrevista de emprego (mas se o Psicólogo que te entrevista for bom, como eu,  em análise de personalidade ou em técnicas de mentira, ele vai saber que você está mentindo).

Mentir pode gerar alívio e dar sensação de prazer ao cérebro, e isso traz satisfação. O problema é que tudo que dá prazer ao cérebro é um potencial gatilho de vício. Além disso, a discussão atravessa o campo do senso ético e moral: quando é que a mentira se torna válida ou vira crime?

E sim, todos nós mentimos, um pouquinho ou muitão. Imagine se você passasse a dizer somente a verdade para seu cônjuge, seu chefe, seus amigos, seu líder ou pastor da igreja, seu mentor espiritual, seu professor, seus colegas de trabalho… E quem nunca colocou uma foto com filtro embelezador ou efeito de photoshop nas redes sociais que atire a primeira pedra.

Podemos concluir que a mentira, assim, pode ser benéfica ou maléfica. Depende de qual lado da verdade você está.

Eu posso garantir que estou sempre ao lado da verdade: a verdade desse bilhete.

Quem nunca?

*este conteúdo é uma contribuição de Tiago Vilela, músico e psicólogo. Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com
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