Saldos do coronavírus: Conflitos familiares, falta de privacidade, instabilidade e solidão

Como a pandemia do novo coronavírus está afetando a saúde mental da população na opinião de especialistas?

por Leandra Vianna, para outrosquinhentos.com

De acordo com estudos recentes de instituições como o Psychological Medicine, que avaliou 25 estudos com mais de 72 mil pessoas, o impacto da Covid-19 nos transtornos psiquiátricos foi menor do que o esperado em 2020. Já para 2021 a previsão não é muito otimista.

Segundo o psicólogo e psicanalista Vladimir Bezerra, do Espaço UnoPsi, do Rio de Janeiro, em 2020 acreditávamos que a pandemia se resolveria em alguns meses e esse pensamento gerou algum conforto à população. Com a piora da crise, o clima de pânico, instabilidade e medo se instaurou.

“O negacionismo em relação a crise foi tamanho, que nem mesmo os índices de mortes, cada vez mais alarmantes, foram capazes de mudar a percepção de grande parte da população sobre a necessidade do isolamento. Passaremos mais um ano usando máscaras e nos cuidando, mas muitos ainda devem morrer. Lidar com notícias tão catastróficas mina a autoconfiança e faz novamente com que o sujeito se depare com a ideia de que a morte está sempre a espreita. Isso tende a trazer mais angústia no cotidiano”, afirma.

“Contudo, esta constatação [de piora da crise] também nos convida a refletir sobre nossos comportamentos e urgências. Preciso reunir muitas pessoas numa festa de aniversário privada? Devo usar a máscara e cumprir os protocolos de segurança? Qual o meu papel como cidadão em tempos pandêmicos? Certamente, questões que não se encerram por si, mas que nos convidam a entender que a pandemia está longe de ser uma ‘gripezinha’ “, pontua Bezerra.

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As pesquisas apontam que, em geral, em 2020 houve um aumento discreto na intensidade de sintomas ansiosos ou depressivos, mas que não configura um aumento no número de diagnósticos de doenças psiquiátricas. Já os níveis de sentimentos de solidão e estresse e o risco de suicídio se mantiveram praticamente iguais no ano passado.

Outro estudo, da Universidade de Liverpool, incluiu 65 pesquisas e chegou a conclusões semelhantes. Tais trabalhos sugerem que nosso cérebro se adaptaria à situação adversa, mesmo que com algumas consequências negativas.

“Não temos uma bula que contenha a recomendação correta para manter o mínimo de saúde mental. Todos os nossos pacientes que continuaram o tratamento terapêutico durante a pandemia conseguiram, através desse processo, manter a saúde mental e física, pois ao entenderem os riscos, seguiram os protocolos de proteção da Organização Mundial de Saúde contra o covid-19. Alguns buscaram uma rotina de forma remota, incluindo atividade física, meditação, lives com amigos e familiares, para atenuar a privação da liberdade necessária no momento”, esclarece a psicóloga e Gestalt terapeuta Márcia Defelippe Durso.

Por outro lado, a convivência em tempo integral com familiares dentro de casa gerou uma piora dos conflitos. “O aumento da procura por terapia aconteceu tanto de pacientes para atendimento individual, quanto familiar. A família, por ter uma convivência por tempo integral, sentiu uma grande dificuldade inicial, na ressignificação do ‘novo normal’, e precisou de ajuda para administrar num mesmo ambiente o trabalho, o lazer, a escola, etc”, explica a terapeuta.

Até mesmo fazer terapia no ambiente doméstico/familiar acabou se tornando um desafio e foi preciso buscar alternativas, como conta Márcia. “A dificuldade mais comum foi conseguir driblar a falta de privacidade de alguns. Assim, ajustes foram sendo experimentados: atendimento na garagem, no play, em escadas, onde o paciente escolhesse ser mais confortável para ele. Os mais idosos, por não terem familiaridade no manejo do computador ou celular, também precisaram se ajustar, fazendo uso de ligações telefônicas normais ou até interfones”.

As queixas por solidão e sofrimento aumentaram realmente, de acordo com Durso. Ela afirma que a proximidade física imposta pelo convívio diário e em tempo integral, acabou expondo as fragilidades que a rotina encobria, gerando a solidão a dois e a intolerância entre pais e filhos, entre irmãos etc.

“Os desentendimentos e os conflitos, antes minimizados pelo pouco tempo de convivência, acabaram se avolumando e em alguns casos extremos a separação do casal aconteceu. Por outro lado, com a terapia, novos arranjos aconteceram e outros casamentos se fortaleceram”.

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Ainda de acordo com a experiência da psicóloga, a procura pelo serviço de terapia aumentou pelo grande isolamento, solidão, incertezas, ansiedade e o prolongamento por tempo indefinido de uma quarentena dramática. O atendimento online se tornou a única opção viável. Esse formato foi bem aceito de forma geral e conseguiu atender a demanda da pandemia.

Um levantamento ainda inédito, com dados de 2 mil participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA), que há décadas acompanha a saúde de 15 mil brasileiros, concluiu que o nível de diagnósticos de transtornos depressivos e ansiosos se manteve estável em 2020.

Os achados da pesquisa sugerem fatores de risco e proteção. Mulheres, jovens e pessoas em situação socioeconômica pior estariam mais sujeitas ao sofrimento psíquico. Porém, nos primeiros meses de 2021, o próprio convívio prolongado com uma pandemia descontrolada no país mostra potencial para debilitar a saúde mental do brasileiro.

Para o psicanalista Vladimir Bezerra, um dos transtornos psicológicos mais comuns nesse período de instabilidade tem sido o transtorno de ansiedade generalizado.

“Muitas pessoas, num estado ansioso, apresentam sinais corporais, tais como: taquicardia, dores musculares, insônia, dor de cabeça, não devido a uma causa fisiológica, mas devido a uma desestabilidade emocional. A pandemia trouxe a ideia de que não temos controle nenhum sobre a vida ou a morte. Essa sensação de insegurança causou nos sujeitos angústias relacionadas, por exemplo, ao medo excessivo de morrer. Temos observado nos consultórios mais relatos sobre crises de ansiedade, como ataques de pânico, compulsão alimentar e comportamento disruptivo, quando o sujeito se desconecta de seu contexto de vida e se fecha num mundo próprio — o que também conhecemos como ‘bolha’ “, conclui.

A qualquer sinal de ansiedade excessiva ou depressão, peça ajuda! Converse com amigos, familiares, colegas de trabalho e busque acolhimento psicológico. Listamos abaixo alguns contatos de instituições que estão oferecendo o serviço de acolhimento online gratuito na pandemia:

Amparo
https://amparo.naacao.com.br

Coletivo Saúde Mental
https://coletivosaudemental.com.br/pesquisa

São Camilo
agendamento.psicologia@saocamilo-sp.br
(11) 3355-3929

Mackenzie
ccbs.clinicapsicologica@mackenzie.br

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