Sobre proteger, amparar e comemorar uma criança

por Tiago Vilela, para outrosquinhentos.com*

Comemorações são formas de expressar nosso contentamento ou satisfação com algum aspecto específico da vida. O próprio ato de celebrar é, por si só, uma afirmação do valor social e subjetivo daquilo que se comemora. Nesse sentido, comemorar a vida, a própria história, é uma forma da nossa mente manifestar e reforçar a importância da própria existência. Comemorar, por exemplo, o dia do Índio, o dia da Mulher, o Dia do Professor, entre outros, é uma forma de reconhecer a importância social deles, bem como reforçar o valor que eles têm para a sociedade.

No mês de outubro, aqui no Brasil, comemoramos o Dia das Crianças. A tradição histórica mostra que o dia das crianças foi visto pelo sistema capitalista como uma oportunidade de potencializar e aumentar as vendas, porém o Poder Legislativo reforçou a importância social da criança quando estabeleceu o Estatuto da Criança e do Adolescente por meio da Lei 8.069 de 1990, isso porque existe um sentido, um valor, uma importância muito maior do que um dia de brincadeiras e presentes.

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E o que significa proteger a criança? Significa proteger o sentido que ela tem. O arquétipo da Criança é símbolo de vida nova, de esperança. Se a criança existe, há esperança de futuro, pois ela representa a futura população, a futura comunidade construtora da sociedade. Num nível mais inconsciente, no reino dos impulsos humanos, e em se falando de Psicanálise, a criança representa a possibilidade de continuação da espécie.

Erik Erikson é um grande estudioso do comportamento humano. Para ele, o desenvolvimento de nossa personalidade se dá por fases da vida em que vivenciamos conflitos específicos. O desenvolvimento saudável se dá na forma como se resolvem esses conflitos, porque a sua resolução permite o desenvolvimento da personalidade, que se torna mais agregada, mais sábia e mais harmoniosa. A falta de resolução ou a fixação mental num conflito impede essa harmonização e gera angústia, ansiedade, medo, desânimo, desespero.

Um dos conflitos mais agregadores da personalidade se dá, justamente, diante do arquétipo infantil. Ao envelhecer, surge o medo da morte, o medo da perda do sentido da vida. Pois, se vamos deixar este mundo, que sentido faz nele nascer, viver e crescer? Por que fazer parte de um processo cujo fim é a morte, o fim da existência?

Para refletir sobre o assunto, usemos o filme “UP: ALTAS AVENTURAS!” Ele conta a história de um encontro inusitado entre um senhor, viúvo, sem filhos, rabugento e estagnado por suas dores, e uma criança, inocente, ingênua, que se delicia com as descobertas da vida em suas aventuras. É um contraste. E é aí que acontecem o primeiro e último grande processo mágico da nossa existência: ao passo em que se caminha para a morte, se prepara um outro para dar continuidade à própria espécie.

O que acontece é que por vezes a jornada da vida vai nos lapidando, moldando, enquadrando, por vezes destruindo os nossos sonhos mais puros e o espírito aventureiro se esvazia da vontade de ir em busca do novo. As injustiças, as dores, as mágoas, o sistema governamental, as brigas, as incertezas: tudo faz parte dos desafios que enfrentamos durante o nosso desenvolvimento ou experiência humana. As perdas no caminho nos fazem sofrer: perdemos emprego, oportunidades, perdemos gente que amamos.

O velho, por vezes, carrega consigo as marcas das frustrações, dos anseios e realizações vetadas, dos sonhos abandonados. Seu espírito sonhador muitas vezes sucumbe a um sistema capitalista dependente de bens materiais e que tem o status como sinônimo de sucesso e realização.

O enfrentamento, entretanto, é possível e saudável quando alimentamos aquela criança que existe em nós. A criança existe para nos lembrar que a vida continua e os sonhos ainda existem. A magia é deixar-se encantar pelo sentimento da criança que se fez deliciosamente vislumbrada com o simples fato de entender as coisas mais sutis da vida. Uma criança se entusiasma quando vê que o grão de feijão por ela plantado brotou, quando aprende a escrever o seu próprio nome, quando começa a se descobrir como parte do ecossistema natural e social.

Ao que está em fase de partida desta vida, cabe a possibilidade de conduzir essa criança, de ensiná-la, de despertá-la para seus sonhos, e assim se sentir parte da continuidade da espécie. A sabedoria deve ser seu material de trabalho; a empatia deve ser seu instrumento. Assim até que a própria natureza, que o criou, o acolha no movimento harmonioso de seu próprio ciclo.

Passar por esse conflito pode ser simples. Realizar, por exemplo, um trabalho voluntário é uma forma de contribuir com o desenvolvimento da própria espécie e a tendência é fazer nascer um sentimento de integração com a própria natureza humana. Ensinar uma criança a plantar um grão de feijão ou escrever seu próprio nome também é uma ação que tende ao sentimento integrativo da personalidade.

E é por isso, e não pela força legislativa, tampouco pela necessidade capitalista, que a criança deve ser protegida e amparada: porque ela representa a possibilidade de continuar existindo. Ela merece um ambiente feliz e saudável, merece nossa proteção, nossa atenção, nosso cuidado, nosso respeito, e, sobretudo, nosso amor. Celebrar o Dia Da Criança significa a possibilidade de reforçar o valor da própria jornada de desenvolvimento e caminhar para o fim de uma estrada, cujo destino é a morte da forma humana de existir, com um sentimento duradouro de ressurreição.

Tiago Vilela criou o projeto Tiago Vilela Kids, com músicas educativas, releituras e composições autorais para os pequenos.

*este conteúdo é uma contribuição de Tiago Vilela, músico e psicólogo. Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com

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