Uma reflexão – e tanto! – para o mês das mães

No mês de maio temos a comemoração do dia daquela em quem a gente põe a culpa de tudo em nossas vidas: a mãe. Você já parou pra pensar quantas vezes na sua vida, em diversas situações, dos mais discretos sucessos aos maiores fracassos, você botou a responsa no colo da sua mãe? Freud explica.

por Tiago Vilela, para outrosquinhentos.com*

Desde a gestação o bebê já é capaz de receber estímulos, pois dentro do corpo da mãe biológica ele recebe nutrientes e experimenta sensações que são, em primeiro momento, produzidos ou decodificados pelo corpo da gestante. Isso já nos dá a ideia de que o bebê recebe os impactos das atitudes de sua progenitora, ou seja, começa aí a responsabilidade.

Na descoberta da existência de vida após o parto, o bebê passa a viver um período em que, instintivamente, identifica uma pessoa que exerce, segundo a Psicanálise, a função materna, que correspondem a tarefas tipo adivinhar por que o bebê tá vermelho de tanto berrar e chorar, dar mamadeira, trocar fralda, dar banho, alimentar, chacoalhar até dormir, fazer massagem na barriga até saírem os gases. Missão trabalhosa, Deus me socorra! Não à toa, no mês de maio se comemora o dia das mães e o dia do trabalhador: maternidade é um trabalho sem fim. Ser mãe é praticamente uma atividade laboral sem carteira assinada, sem salário e sem vale alimentação.

Já nesses primeiros instantes da vida o nosso sistema nervoso está explodindo de tanto trabalhar, recebendo e decodificando diversos estímulos oriundos do próprio corpo (como frio, sono, fome e necessidade de fazer xixi) e do ambiente (temperatura, ruídos, cores, odores). É por meio desses estímulos que o bebê experimenta o mundo e vai entendendo que aquele universo quentinho do ventre materno, sem boletos e impostos e com comida totalmente free, já era.

As primeiras sensações experimentadas vão são registradas na memória. Elementos como tonalidade da voz, cheiro, jeito de olhar, intensidade, entre outros, são elementos que geram estímulos psicofisiológicos de base afetiva. Novas experiências afetivas e emocionais serão interpretadas com base nesse primeiro conjunto de informações armazenadas. E é então que ganha força a motivação da nossa prática de culpar a mãe por tudo que dá errado nas nossas vidas, isso porque a forma como essa mãe cuida do baby tem impacto no desenvolvimento de sua personalidade.

É importante entender, ainda, que quando se fala em “mãe” a Psicanálise se refere à pessoa que exerceu funções maternas. O papel de figura materna é exercido por aquela pessoa que se responsabilidade por essas atividades maternais referentes aos primeiros cuidados após o nascimento e que o bebê identificou como essa pessoa responsável por mantê-la vida, e não necessariamente que gerou e pariu. E essa mãe é a responsável pelas primeiras associações de afeto da criança, é a primeira referência de amor.

Então, sim. Eu diria que a culpa é da mãe. Mas calma lá, isso não pode valer pra vida toda. Com o tempo, nosso sistema nervoso passa pelo processo de maturação, que permite o desenvolvimento cognitivo como um todo. Conforme cresce e desenvolve, nosso cérebro dá condições pra gente entender que precisamos daquela pessoa pra sobreviver nos primeiros anos de vida, mas depois, filhão, te vira nos 30 porque essa mãe é uma pessoa e você é outra.

Não à toa o Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como o Código Civil, indicam, para efeito legislativo, que ao atingir uma certa idade o “bebê da mamãe” já responde por suas falcatruas e vacilos. E isso tem fundamento. Nessa idade o sistema nervoso já “nos trinks” está cheio de condição de sair por aí julgando qualquer fato sob sua própria responsabilidade. Pela lei do Direito e do Desenvolvimento Psicológico, pode consumir bebida alcoólica por sua conta e risco, pode decidir se vai pra balada ou se estuda até tarde e o bebê pode também ir pro motel. E claro, é sempre um prazer saboroso informar e reforçar que já pode ter carteira assinada, pagar boleto, ter conta em banco e ter descontando dessa conta os impostos referentes à água e luz, usar o próprio dinheiro recebido por seu nobre trabalho pra comer, pra ir ao cinema… E também já pode responder por suas contravenções penais.

Isso isenta a mãe da culpa? Depende do ponto de vista. Há vários fatores a serem considerados. E nem só de amor, carinho, afeto e gratidão se faz a maternidade na prática. Tem mãe que deixa o bebê crescer? Não. Temos, aos montes, mamães que continuam superprotegendo suas crianças quando já são adultas. E isso é um problema para o desenvolvimento da autonomia desse sujeito.

Mulher que joga a criança no lixo? Tem. Mãe que abandona a criança? Tem. Mãe que espanca o filho? Tem. Mãe que vende o seu bebê? Tem. Mãe emocionalmente abusiva? Tem. Não sejamos hipócritas: romantizar a maternidade e torná-la uma experiência de amor celeste e pleno de perfeição é uma forma de negar a própria experiência humana e aceitar viver uma realidade mental de traços psicóticos. Tem problema sim.

E tem o esgotamento mental que pode ser causado pelo exercício da função materna. A pessoa que exerce essa função muitas vezes se abandona, deixa de cuidar de si, do seu corpo, da sua saúde, não dorme direito, renuncia à satisfação de tantos desejos e sonhos, não come direito, não consegue ir ao banheiro em paz. O desgaste mental às vezes faz a mãe desejar a morte do próprio filho.  Sim, isso é mais comum do que você imagina. E é por isso, também, que a maternidade é um desafio e que culpar a mãe por tudo é uma forma de ser ingrato e injusto, além de ser uma artimanha pra se livrar de responsabilidades próprias.

O caminho mais próximo daquilo que julgamos como um desenvolvimento saudável é aquele em que a figura materna exercita a autonomia de sua cria, mostrando que ela deve ser responsável por suas decisões, ao passo em que resguarda sua própria individualidade e identidade, enquanto a cria compreende que, na jornada materna, essa mãe abriu mão de muita, mas muita coisa mesmo em prol da saúde física e mental do seu filho. E sim: a mãe vai se culpar e se sentir responsável pelo resto da vida por praticamente tudo o que acontecer com você. E a maternidade se torna uma missão completa quando o filho ou filha assumiu sua autonomia e se tornou consciente e totalmente responsável por suas atitudes.

O importante é reconhecer que sua mãe (ou sua figura materna) fez o que pôde para te proteger, por amor, e também por culpa. E, além de reconhecer, fazer o possível para retribuir tanto amor gratuito. A isso chamamos de gratidão que é um dos processos mais bonitos e enobrecedores do ser humano.

Aos que não têm mãe, ou que a mãe abandonou, ou maltratou ou algo do tipo, eu realmente lamento por isso. Mas se você quer ser feliz, é preciso abandonar a autopiedade, encarar a realidade e saber que você pode ser o dono das suas decisões. Se você está lendo e entendendo este texto, então, meu filho, você é mais que capaz de tomar conta da sua vida e pagar seus boletos. Se estiver com dificuldade, procure um auxilio terapêutico. É fácil? Não. Eu nunca afirmei isso. Pode ser complicado, mas sua vida precisa caminhar pra frente.

E pra quem tem mãe por perto, que tal dar uma aliviada nos ombros delas? Pode ser uma massagem, um presentinho, um abraço. Tem casos que só de você lavar a louça já vai dar uma aliviada mediana. O importante é você fazê-la se sentir especial.

Feliz mês das mães!

*este conteúdo é uma contribuição de Tiago Vilela, músico e psicólogo. Os textos dos colunistas são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente expressam a opinião de outrosquinhentos.com
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